Minha primeira consulta ginecológica

     

Que é que você está sentindo?
Olha, meu peito direito está inchado, como se tivesse uma pedra aqui dentro, dói bastante. Já tomei antiinflamatórios por 15 dias, esperando que fosse uma lesão muscular, mas não desinchou.
Hum… tá. (e continuou tomando anotações, ainda sem me encarar, por quase meio minuto. Parou. Agora me fita compenetrada.) É na mama mesmo, né?
Sim.
(Olha, então, para a outra enfermeira, mais nova, com um colar brilhante no pescoço, de óculos com lentes grossas e curiosamente em pé, mesmo existindo uma cadeira para que também estivesse sentada conosco.) Gineco, né?
É, também, acho… (diz num cochicho com sua parceira, como se tal artimanha me impedisse de escutar a ambas, que estão bem na minha frente. Em seguida, se vira, como se retornando do esconderijo secreto no qual analisavam minha situação.) Olha moço, tem casos raros de cistos em homens. Você vai passar na ginecologista, tudo bem? É só seguir o corredor, virar a terceira à direita e se informar no balcão.
Ginecologista…? Uau…! Serei um dos poucos seres humanos do sexo masculino capazes de dizer, de boca cheia e peito estufado – e ainda por cima inchado: Já passei no GINECOLOGISTA! Imagina, só? Ué, pera aí. Mas assim, sem mais nem menos? Poxa, sempre imaginei o quão marcante seria a primeira consulta em tal especialidade. Como uma mulher deveria estar preparada fisica e psicologicamente para se mostrar por inteiro a tal profissional da saúde.
E comigo seria assim, no susto, sem nenhuma preparação, nem conversa com minha mãe, nem conselho de amigas, nem incentivo paternal? Nas duas únicas vezes que passei num urologista, durante a infância e por conta de pedras nos rins, mal consegui falar! E agora?
Próximo!
Entendi então que devia sair da sala. Fui para o tal corredor. Em que momento tinha de virar à direita mesmo? Ou era à esquerda? Nossa, que calor infernal… o hospital encontrava-se abarrotado de crianças e velhinhos, todos sofrendo com a elevada temperatura do começo de janeiro. Espera prevista para ser atendido: no mínimo 6 horas. Isso se eu conseguisse por fim achar o bendito corredor, é claro…
Senhor, boa tarde. Por favor, onde fica o setor da ginecologia?
Por quê, vai marcar consulta pra alguém?
Não, senhor. Vou passar eu mesmo.
(O vigia da entrada principal me mira profundamente, cara fechada. Tem uns 45, 50 anos. Sério, carrancudo e aparentemente pensou ou que fui irônico ou que estava de deboche.) Não pode.
Mas senhor, é que estou com um problema na mama. É sério.
(Permanece a fitar-me por segundos em silêncio.) Próximo corredor à direita, mas deve ter algum erro. Ginecologista é pra mulher, cê num vai conseguir passar não. Pode ir.
Muito obrigado!, respondi com um enérgico e genuíno sorriso de alívio.
Seis passos. Exatamente meia dúzia de largos passos até chegar à entrada da área ginecológica. Em seguida, pertenceria gloriosamente ao hall masculino da fama: meus netos saberiam que um dia seu avô, bravamente, mesmo contra a vontade do vigia da portaria principal e sem o apoio de amigos e parentes, passou por ali! Bastava ir para o balcão de atendi…
Aonde o senhor vai, por favor?
Outro segurança? Ah, não… mas esse é daqui, já deve ter visto outros como eu. Vai ser tranquilo, certeza: Vou passar em consulta.
Consulta? O senhor deve estar procurando o U-RO-LO-GIS-TA (enfatizou bem a palavra para que eu a aprendesse e não mais confundisse as especialidades).
Não, é ginecologia mesmo – disse risonho, de alma escancarada, em busca da simpatia do vigilante. Resultado?
Hahahahaha! Tá de brincadeira, né? Como assim, rapaz? Cada uma viu… é pegadinha, é? Cadê a câmera? – sentia-se meu companheiro de traquinagem, achou engraçado o toque de descontração num ambiente em que as pessoas estão sempre bravas, posto que doentes e geralmente com dor.
Pois num é brincadeira, seu vigia.
Tudo bem, tudo bem. Vai marcar consulta pra alguma mulher, é?
Não…
Pois então siga por aqui, ó, que a urologia…
Como provar para esse senhor minha humilde necessidade ginecológica? Minha palavra lhe parece piada, meus pedidos lhe soam como pegadinhas, preciso de alguma autoridade alheia, um documento, um… papel! Aqui ó, o pedido da consulta, tem meu nome escrito nele.
Deix’eu ver… (de contente sua face tornou-se franzida. Parecia estar matutando como era possível um troço daqueles. Só podia ser erro… como que um homem poderia passar por ali? Ia fazer o que por lá? Coisa mais doida…)?
Posso passar?
Pode sim, é só passar no balcão.
Ufa! Mais uma barreira abaixo! Por fim: balcão.
Vim passar em consulta, por favor.
O que aconteceu? Continuo na próxima crônica neste link, que nessa já contei desaforo por demais da conta.

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Publicada em 03/01/2014

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As dificuldades de (tentar) ser um homem menos ‘macho’

Só percebi que existia um problema, de verdade, quando notei que passava metade do dia defendendo que não era homofóbico nem machista e a outra metade preocupado em provar que ‘era HOMEM’. Nesse exato momento, abriu-se uma caixa de pandora e pulularam do meu ser uma série de preconceitos com os quais tive de lidar. Precisaria ser ingênuo ou hipócrita demais pra continuar a fingir que tava tudo bem.

Ao buscar as raízes da minha construção pessoal de ser humano, notei algo importante: ‘ser homem’ nunca foi uma afirmação em si na minha vida, mas sim uma série de NÃOs. Fui ensinado que ser homem era ‘não ser viado’, ‘nem mulherzinha’, e evitar todas as características atribuídas a ambos os grupos.

Jamais vou me esquecer da primeira vez que fui apresentado, conscientemente, à condição de ‘macho’. Desde bem pequeno, gostava de sentar com as pernas cruzadas uma sobre a outra, posição geralmente associada a mulheres. Enquanto bebê, ainda vai, mas quando tinha mais ou menos uns 4 anos, na creche, algum colega disse: “Você senta que nem mulherzinha, nem sabe fazer igual homem!”, todos os outros meninos ao redor riram. Não sabia o que significava ‘ser mulherzinha’, tampouco por que cruzar as pernas me transformava em mulherzinha, muito menos ainda porque parecer mulherzinha era ruim, mas pela humilhação que estava passando era óbvio que não prestava.

A partir daí vieram somando-se, gradativamente, as oposições responsáveis por definir o que era ‘coisa de viado e mulherzinha’ e ‘ser macho’: Cuspir no chão, macho. Não fazê-lo, bicha ou puta. Dar abraço, viado. Apertar a mão bem forte para quase machucar, macho. Dizer que ama alguém, menininha. Cumprimentar-se com palavrões, super másculo. Ver meninas bonitas passando e gritar “ô lá em casa, sua gostosa!”, macho. Ficar de boa ao ver as mesmas meninas caminharem, mais gay impossível. Flexionar a perna para trás, como num alongamento, para ver se tinha chiclete ou cocô debaixo do tênis, em vez de dobrar a perna para a frente em forma de um 4, era ser bicha e mulherzinha ao mesmo tempo!

Pois assim fui crescendo e adaptando-me à moral machista, sem preocupar-me em questionar o porquê de ser tão ruim assemelhar-me a uma mulher ou a um homossexual, todo o mundo pensava assim, num carecia de explicação adicional. Quando a pedia, era aloprado pelos garotos mais velhos. Usar os argumentos de que todos tínhamos pai, mãe, parentes, fomos bebês, criancinhas e provavelmente assistíamos aos mesmos desenhos animados não colava. O mundo era simples, tinha definição do que era certo ou errado, bom ou ruim, macho e não-macho, bastava eu me adaptar que ficaria tudo bem. Só que não.

Chegou o momento em que foi insuficiente ‘provar que não era gay’ pra continuar a ser homem, precisaria também zombar dos outros que por ventura desconhecessem os códigos do macho-alfa, insultar os transgressores que queriam mascar chiclete de boca aberta ou usar brinco, defender nossa moral, seja lá o que isso significasse. O problema, probleminha tolo e de pouca importância, é que quando pentelhava alguém, eu chorava à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Sempre considerei repugnante a ideia de agredir às pessoas, mesmo que verbalmente. Machucava-me, e muito. Sabia que estava errado, no entanto, se não agisse igual aos outros garotos, viraria um pária social e seria zuado, provavelmente apanharia e meus amigos se afastariam de mim para evitar confusão com os machões de nosso convívio cotidiano. Aceitei machucar a mim mesmo e aos outros com medo de passar por um sofrimento ainda maior.

Eis que o menino cresce e, de uma tacada só, vira pai e universitário, duas transformações gigantescas. Na faculdade, de comunicações e artes, vários homossexuais assumidos sem o menor pudor desfilam pra lá e pra cá e há feministas a torto e a direito, nunca havia visto um troço desses, puro despudor. Não que jamais tivesse tido conhecidos gays ou paquerado umas ‘feministinhas rebeldes’, mas eram exceções, casos isolados, ignoráveis. Aquilo ali era uma zorra, maluquice da braba! Não fosse o suficiente, começou a pensar mil vezes antes mesmo de abrir a boca frente a uma mulher, pois toda garota a partir de agora o lembrava de sua filha, e ele tinha ainda menos vontade ou coragem de dizer algo obsceno – mesmo que achasse tal comportamento ‘natural’ para um homem-, pois dava-lhe ânsia imaginar que falariam as mesmas calhordices pra sua primogênita quando crescesse.

Em resumo, confrontado com um universo completamente distinto ao que estava habituado, precisei repensar boa parte de meus valores de macho e questioná-los um por um. No fim, a maioria deles não suportou meia-dúzia de reflexões verdadeiras e extinguiu-se. Isso porque acharam um lugar propício para deixar de existir, um espaço no qual meu escrotismo era a exceção, e não o contrário. Percebi que a influência de minha criação não me determinava, que poderia lutar contra mim mesmo, todos os dias, para ser menos zuado. E estava disposto a fazê-lo. Também foi crucial o apoio de pessoas que me entendiam como vindo de outra realidade e tiveram paciência de me ajudar a refletir, responder a minhas indagações por mais idiotas ou preconceituosas que parecessem, indicar leituras, canções, compartilhar vivências em vez de me tachar de homofóbico filho da puta e sem salvação e, automaticamente, me excluir, como fizeram outros tantos.

Tem sido difícil, perdi amigos. Muitos não engoliram esse negócio d’eu começar a cumprimentar os parceiros com abraço e beijo no rosto, de sentar de perna cruzada e falar em amor, de conversar sobre sentimentos e não ter vergonha de chorar e pedir ajuda, de afastar-me cada vez mais de uma definição de homem para aproximar-me de uma concepção de ser humano. É como se eu tivesse virado viado ou fêmea. E mais indigesto ainda: como se não ligasse para o fato de parecer viado e/ou fêmea.

Pois a vida segue. E na jornada por tornar-me um ser humano menos repugnante venho conquistando novas e lindas amizades, descobrindo o quanto de machista ainda tenho em mim sem perceber e brigando contra tais características, explicando para as amigas feministas que abro as portas para os meninos também e portanto não deveriam xingar-me quando o faço instintivamente, contando para minha mãe sobre como foi usar uma saia pela primeira vez, influenciando minha filha a questionar e refletir sobre a concepção de que menina tem de usar rosa e brincar de boneca e, neste exato momento, escrevendo um texto para esclarecer para mim mesmo e aos amigos, velhos ou novos, o momento que tenho vivido.

Por fim, aproveito para agradecer aos corajosos que até aqui chegaram e pedir desculpas, de verdade verdadeira, a todos com quem já fui extremamente machista nesses poucos anos de vida. Não tenho como justificar meus atos, mas é possível contextualiza-los, problematizá-los e, assim, admitir que cometi muitos erros. Bora que a batalha continua e ainda tenho muito do macho que existe em mim para afrontar!

[Mamá, ¿Vos qué futuro le ves a ese movimiento por la liberación de la mujer? No, nada… olvídalo!]

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Texto escrito em 26 de junho de 2013

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Um jegue em Itapevi

Animóvel, conversível de luxo transportando cebola e batata. gente corre, grita, fede a peixe, mamão e alho. cascos carcomidos e encharcados… toma! crianças riem, o couro rasga, a água pesa, o sangue voa, infecta o Ipad da patroa. língua no dente, guincho, é a vez das moscas-abutre.


Escrito em 20/06/2013

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Intercambista

A primeira vez que vi Madri
Achei que tinha ruas desengonçadas
Achei também que o metrô parecia uma rua.

Quando vi Madri de novo
Achei que suas caras eram muito mais ricas que sua Bandeira
(As caras – marrons, amarelas, caucasianas e negras – nasceram e ficam esperando a queda majestosa da Bandeira)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a Porta do Sol
E o espírito Republicano voltou a se mover sobre as águas do Manzanares.


Escrito em 13/06/2013

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Gravidade

Foi ao chão
Espatifou-se
Pedaços de uma existência
Destroços
A luz vermelha pulsante,
pisca-pisca da vida,
parou.
Restaram leds partidos ao meio
meu ódio misturado com os fios
Trinta reais
O preço nada tinha que ver
entranhas faiscantes que chiavam como se agonizassem
Maldito valor emocional.


Escrito em 13/06/2013

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Obra-prima do indizível

Livro de Clarice Lispector fundamenta-se na impossibilidade de racionalizar e verbalizar o que se sente

“O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?” É com esse questionamento de Joana, personagem principal de Perto do Coração Selvagem, que dou início a minha percepção acerca do primeiro romance publicado por Clarice, em 1944. A pergunta de certa forma resume o tema principal da obra pois, acredito, o “saber que se está vivendo” seria a habilidade de entender e explicar, para si mesma, os sentimentos em uma linguagem linear e pautada por uma racionalidade cartesiana. A história da personagem nos incita a questionar a obrigação e a capacidade humanas de traduzir o que se sente, por meio das palavras, sem assim empobrecer o viver. Com uma escrita cuidadosamente trabalhada, permeada de neologismos, rápida, de frases curtas e quase sempre em ordem direta, a autora não narra fatos, mas sim pensamentos.

O romance navega por fluxos de consciência da vida interior de Joana, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, imergindo às vezes no passado, às vezes no presente. Os “simples” fatos da existência da personagem pouco ou nada importam para os fins da narrativa. O que importa são seus pensamentos, forma como absorve e processa “o real”. O livro vai desvendando a sua visão de mundo e mostrando a construção da realidade, retratada como nada mais do que a forma como é vista e entendida por Joana e pelos demais personagens. Nos poucos diálogos que de fato acontecem, questiona-se a capacidade de se expressar e como o ato de verbalizar um sentimento o vai transformando simultaneamente: “A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto, mas o que eu digo.” Mesmo ainda na infância, quando essa aparece representada não por uma leitura presente da época, mas sim por uma expressão simultânea do vivido, Joana prefere o silêncio a ter de utilizar-se da fala para dar sentido às ações de sua vida, pois “tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar.”

A maneira verdadeira e direta com que a obra nos faz enxergar a consciência das personagens causa uma empatia quase automática. O romance se infiltra em nossa mente, gera comoção pelo sofrimento, pela clausura linguística daqueles seres, presos não por uma incapacidade de domínio das palavras, mas pela limitação que a linguagem traz dentro de si. E nos faz questionar se de verdade é possível viver profundamente a experiência de existir sempre preocupando-se em dar sentido a tudo o que se sente, ignorando-se ou definindo como loucura o que não pode ser dito. Existe uma valorização muito forte do onírico, a narradora nos envolve em situações mescladas de sonho e real, em que o real age, no máximo, como coadjuvante de um cenário mais importante, presente e forte. Que importa o que é realmente?, somos questionados pelo texto e tendemos a concordar que a importância do não-real é cotidianamente subestimada pelo ser humano. Como não ser tocado pela graça e sensibilidade construída por uma das diversas cenas oníricas narradas e vividas por Joana, como quando realiza uma tentativa (frustrada) de diálogo com o marido, Otávio, para tentar sair dos discursos pragmáticos e óbvios que geralmente desenvolviam juntos:

— Sonhei que as bolas brancas vinham subindo de dentro…

— Que bolas? De dentro de onde?

— Não sei, só que elas vinham…

Nada no romance é ‘contado’, no sentido comum do termo, mas escrito: as situações surgem por meio de metáforas, metáforas essas que se articulam em contextos e personagens. O enredo, a história provável, se constrói por quem lê, propõe-se uma coautoria com o leitor. Assim, é colocada em crise a representação do mundo com seus códigos simbólicos, desmonta-se a das pessoas entre si e cria-se um contexto em que se possa arquitetar o impossível. Apenas fora da ordem cartesiana, em que se divide um fenômeno para buscar uma compreensão posterior do todo, seria possível criar sentido. Para Joana, “parecia-lhe que se ordenasse e explicasse claramente o que sentira, teria destruído a essência de “tudo é um””, essência que configurava seu modo de viver.

Outro ponto importante da obra é o lirismo alcançado por meio da sinestesia. Somos convidados a misturar nossos sentidos e experimentar o mundo por meio de descrições como um cheiro frio de mato molhado. Com a sinestesia, vamos nos aproximando de uma experiência mais completa e ‘una’ do mundo, em que os cinco sentidos seriam insuficientes separados, mas juntos seriam capazes de proporcionar vivências até então impossíveis. Visão de mundo inimaginável para todos que admiravam e ao mesmo tempo temiam Joana por seu jeito singular de se entregar inteiramente a cada fenômeno que chamasse sua atenção, por mais corriqueiro ou inoportuno que fosse. Dessa forma, sempre questionadora e perdida dentro de si, a personagem pensava que quanto menos inteligente se é, mais se compreende a vida, e por vezes sentia inveja de quem vivia compreendendo a vida por não ser suficientemente inteligente para não compreendê-la. E, depois de muitas reflexões, idas e vindas, até a última linha permanece insolúvel o dilema do romance: “O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?”. Resta-nos, pois, o desafio de vivenciar a pergunta e experimentar o processo.


Texto escrito em 02/05/2013.
Para os que tiverem curiosidade e vontade de ler o livro,  segue o arquivo em PDF da obra neste link para download: CLARICE LISPECTOR – PERTO DO CORACAO SELVAGEM

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Microbiografia de si (por si mesmo)

Wilheim já veio ao mundo confuso, nem a mãe tinha certeza de como dizer seu nome. Cresceu em Itapevi, na Grande São Paulo, que de Grande, e de São Paulo, nada tinha além do nome. Morou em favela, cresceu na Cohab e da infância sente saudade, principalmente, de jogar videogame até os dedos doerem e, depois, para relaxar, sair de mão dada com as namoradinhas. De mão dada em mão dada, virou pai antes de deixar de ser filho. E, hoje, as mãos que segura nas ruas têm apenas 3 aninhos e foi ele mesmo quem fez. Protótipo de gente, Wilheim estuda jornalismo, não gosta de chuchu e seu maior prazer é contar histórias.

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(Texto escrito em 07/03/2013, resultado de um exercício no qual tinha de escrever uma microbiografia sobre mim mesmo, em terceira pessoa, em 8 linhas de uma folha de caderno grande e com tempo de 20 minutos para pensar.)

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