Papai Noel – Solano Trindade

Papai Noel

Papai Noel vive zangado com menino pobre
não lhe dá presente
não lhe dá brinquedo

Numa fila enorme
às vezes lhe dá humilhação
se tiver cartão
ganha coisas usadas
dos meninos ricos…

É preciso mudar esse papai noel…

Anúncios
Publicado em Audiocast, Reportagens | Marcado com , , | Deixe um comentário

Em busca de atendimento ginecológico, parte final

Conforme o prometido, continuo a seguir a epopeia iniciada na crônica anterior (que você pode acessar aqui, caso ainda não tenha lido a danada).

Vim passar em consulta, por favor.
(Eternos segundos de silêncio com olhar de peixe morto em minha direção depois, como se tivesse questionado, em seu interior mais profundo, o próprio sentido da vida e retornado para contar-me uma revelação superior, disse) Aqui é o setor de ginecologia, senhor.
Sério? Ginecologia? Não acredito! Rapaz, mesmo com dois seguranças querendo me convencer de que aqui era esse setor – ao qual eu não pertenço e do qual tenho de manter-me afastado -, com todas as placas dessa ala indicando que tal especialidade AQUI atende às almas necessitadas, e com a indicação por escrito das enfermeiras da triagem mandando-me pra cá, juro, pensei que fosse a urologia, que é lugar de homem de verdade, né?! Ufa, ainda bem que me esclareceste a situação com tua sabedoria suprema, ó, grande atendente iluminado! Por fim, esse insano pecador pode redimir seu erro e encerrar a tola busca. Muito obrigado, ó, presença eminente do universo hospitalar que tudo sabe e tudo vê! Continuar lendo

Publicado em Artigos e Opinião | Marcado com , , , | 2 Comentários

Minha primeira consulta ginecológica

     

Que é que você está sentindo?
Olha, meu peito direito está inchado, como se tivesse uma pedra aqui dentro, dói bastante. Já tomei antiinflamatórios por 15 dias, esperando que fosse uma lesão muscular, mas não desinchou.
Hum… tá. (e continuou tomando anotações, ainda sem me encarar, por quase meio minuto. Parou. Agora me fita compenetrada.) É na mama mesmo, né?
Sim.
(Olha, então, para a outra enfermeira, mais nova, com um colar brilhante no pescoço, de óculos com lentes grossas e curiosamente em pé, mesmo existindo uma cadeira para que também estivesse sentada conosco.) Gineco, né? Continuar lendo

Publicado em Artigos e Opinião | Marcado com , , , | 1 Comentário

As dificuldades de (tentar) ser um homem menos ‘macho’

Só percebi que existia um problema, de verdade, quando notei que passava metade do dia defendendo que não era homofóbico nem machista e a outra metade preocupado em provar que ‘era HOMEM’. Nesse exato momento, abriu-se uma caixa de pandora e pulularam do meu ser uma série de preconceitos com os quais tive de lidar. Precisaria ser ingênuo ou hipócrita demais pra continuar a fingir que tava tudo bem.

Ao buscar as raízes da minha construção pessoal de ser humano, notei algo importante: ‘ser homem’ nunca foi uma afirmação em si na minha vida, mas sim uma série de NÃOs. Fui ensinado que ser homem era ‘não ser viado’, ‘nem mulherzinha’, e evitar todas as características atribuídas a ambos os grupos. Continuar lendo

Publicado em Artigos e Opinião | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Um jegue em Itapevi

Animóvel, conversível de luxo transportando cebola e batata. gente corre, grita, fede a peixe, mamão e alho. cascos carcomidos e encharcados… toma! crianças riem, o couro rasga, a água pesa, o sangue voa, infecta o Ipad da patroa. língua no dente, guincho, é a vez das moscas-abutre.


Escrito em 20/06/2013

Publicado em Artigos e Opinião | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Gravidade

Foi ao chão
Espatifou-se
Pedaços de uma existência
Destroços
A luz vermelha pulsante,
pisca-pisca da vida,
parou.
Restaram leds partidos ao meio
meu ódio misturado com os fios
Trinta reais
O preço nada tinha que ver
entranhas faiscantes que chiavam como se agonizassem
Maldito valor emocional.


Escrito em 13/06/2013

Publicado em Artigos e Opinião | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Obra-prima do indizível

Livro de Clarice Lispector fundamenta-se na impossibilidade de racionalizar e verbalizar o que se sente

“O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?” É com esse questionamento de Joana, personagem principal de Perto do Coração Selvagem, que dou início a minha percepção acerca do primeiro romance publicado por Clarice, em 1944. A pergunta de certa forma resume o tema principal da obra pois, acredito, o “saber que se está vivendo” seria a habilidade de entender e explicar, para si mesma, os sentimentos em uma linguagem linear e pautada por uma racionalidade cartesiana. A história da personagem nos incita a questionar a obrigação e a capacidade humanas de traduzir o que se sente, por meio das palavras, sem assim empobrecer o viver. Com uma escrita cuidadosamente trabalhada, permeada de neologismos, rápida, de frases curtas e quase sempre em ordem direta, a autora não narra fatos, mas sim pensamentos.

O romance navega por fluxos de consciência da vida interior de Joana, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, imergindo às vezes no passado, às vezes no presente. Os “simples” fatos da existência da personagem pouco ou nada importam para os fins da narrativa. O que importa são seus pensamentos, forma como absorve e processa “o real”. O livro vai desvendando a sua visão de mundo e mostrando a construção da realidade, retratada como nada mais do que a forma como é vista e entendida por Joana e pelos demais personagens. Nos poucos diálogos que de fato acontecem, questiona-se a capacidade de se expressar e como o ato de verbalizar um sentimento o vai transformando simultaneamente: “A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto, mas o que eu digo.” Mesmo ainda na infância, quando essa aparece representada não por uma leitura presente da época, mas sim por uma expressão simultânea do vivido, Joana prefere o silêncio a ter de utilizar-se da fala para dar sentido às ações de sua vida, pois “tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar.”

A maneira verdadeira e direta com que a obra nos faz enxergar a consciência das personagens causa uma empatia quase automática. O romance se infiltra em nossa mente, gera comoção pelo sofrimento, pela clausura linguística daqueles seres, presos não por uma incapacidade de domínio das palavras, mas pela limitação que a linguagem traz dentro de si. E nos faz questionar se de verdade é possível viver profundamente a experiência de existir sempre preocupando-se em dar sentido a tudo o que se sente, ignorando-se ou definindo como loucura o que não pode ser dito. Existe uma valorização muito forte do onírico, a narradora nos envolve em situações mescladas de sonho e real, em que o real age, no máximo, como coadjuvante de um cenário mais importante, presente e forte. Que importa o que é realmente?, somos questionados pelo texto e tendemos a concordar que a importância do não-real é cotidianamente subestimada pelo ser humano. Como não ser tocado pela graça e sensibilidade construída por uma das diversas cenas oníricas narradas e vividas por Joana, como quando realiza uma tentativa (frustrada) de diálogo com o marido, Otávio, para tentar sair dos discursos pragmáticos e óbvios que geralmente desenvolviam juntos:

— Sonhei que as bolas brancas vinham subindo de dentro…

— Que bolas? De dentro de onde?

— Não sei, só que elas vinham…

Nada no romance é ‘contado’, no sentido comum do termo, mas escrito: as situações surgem por meio de metáforas, metáforas essas que se articulam em contextos e personagens. O enredo, a história provável, se constrói por quem lê, propõe-se uma coautoria com o leitor. Assim, é colocada em crise a representação do mundo com seus códigos simbólicos, desmonta-se a das pessoas entre si e cria-se um contexto em que se possa arquitetar o impossível. Apenas fora da ordem cartesiana, em que se divide um fenômeno para buscar uma compreensão posterior do todo, seria possível criar sentido. Para Joana, “parecia-lhe que se ordenasse e explicasse claramente o que sentira, teria destruído a essência de “tudo é um””, essência que configurava seu modo de viver.

Outro ponto importante da obra é o lirismo alcançado por meio da sinestesia. Somos convidados a misturar nossos sentidos e experimentar o mundo por meio de descrições como um cheiro frio de mato molhado. Com a sinestesia, vamos nos aproximando de uma experiência mais completa e ‘una’ do mundo, em que os cinco sentidos seriam insuficientes separados, mas juntos seriam capazes de proporcionar vivências até então impossíveis. Visão de mundo inimaginável para todos que admiravam e ao mesmo tempo temiam Joana por seu jeito singular de se entregar inteiramente a cada fenômeno que chamasse sua atenção, por mais corriqueiro ou inoportuno que fosse. Dessa forma, sempre questionadora e perdida dentro de si, a personagem pensava que quanto menos inteligente se é, mais se compreende a vida, e por vezes sentia inveja de quem vivia compreendendo a vida por não ser suficientemente inteligente para não compreendê-la. E, depois de muitas reflexões, idas e vindas, até a última linha permanece insolúvel o dilema do romance: “O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?”. Resta-nos, pois, o desafio de vivenciar a pergunta e experimentar o processo.


Texto escrito em 02/05/2013.
Para os que tiverem curiosidade e vontade de ler o livro,  segue o arquivo em PDF da obra neste link para download: CLARICE LISPECTOR – PERTO DO CORACAO SELVAGEM

Publicado em Artigos e Opinião, Reportagens | Marcado com , , , | Deixe um comentário