Em busca de atendimento ginecológico, parte final

Conforme o prometido, continuo a seguir a epopeia iniciada na crônica anterior (que você pode acessar aqui, caso ainda não tenha lido a danada).

Vim passar em consulta, por favor.
(Eternos segundos de silêncio com olhar de peixe morto em minha direção depois, como se tivesse questionado, em seu interior mais profundo, o próprio sentido da vida e retornado para contar-me uma revelação superior, disse) Aqui é o setor de ginecologia, senhor.
Sério? Ginecologia? Não acredito! Rapaz, mesmo com dois seguranças querendo me convencer de que aqui era esse setor – ao qual eu não pertenço e do qual tenho de manter-me afastado -, com todas as placas dessa ala indicando que tal especialidade AQUI atende às almas necessitadas, e com a indicação por escrito das enfermeiras da triagem mandando-me pra cá, juro, pensei que fosse a urologia, que é lugar de homem de verdade, né?! Ufa, ainda bem que me esclareceste a situação com tua sabedoria suprema, ó, grande atendente iluminado! Por fim, esse insano pecador pode redimir seu erro e encerrar a tola busca. Muito obrigado, ó, presença eminente do universo hospitalar que tudo sabe e tudo vê!
Foi a primeira resposta que me veio à mente, é claro. Só que como o peito doía e comprar briga com o balconista não tinha pinta de que ia ajudar, limitei-me a responder: Eu sei. Olha aqui o papel, por favor.
Simples. Tudo resolvido. Incrível o poder esclarecedor daquele pequeno pedaço de árvore morta. O que eu dissesse soava como latidos incompreensíveis ou mentiras descabidas a meus interlocutores, no entanto algumas letras impressas validavam o aparentemente impossível, absurdo. Virava verdade instantânea, como num passe de mágica.
Passadas apenas duas horas, ouço uma voz feminina, aguda: Wilheim!
Estranho. Alguma conhecida aqui na sala de espera? Sustento o olhar na direção do som e encontro uma bela mulher, alva, de saia preta, mais ou menos 29 anos, brincos minúsculos e reluzentes, com o nome no jaleco bordado à mão e a face extremamente ansiosa, esperando descobrir o ser humano que responde por aquele nome excêntrico. Coloco o livro na mochila, desengonçado, e me apresso ao seu encontro.
Falei certinho, né? UILRAIM. É assim que se pronuncia?
Sim.
As pessoas sempre acertam?
Não, você é uma das únicas pessoas a fazê-lo de primeira – disse satisfeito pela preocupação daquele ser em chamar-me pelo nome corretamente.
Sabia! Nome difícil o seu! Mas tinha certeza que acertaria! (Seu rosto exaltava alegria, cheguei mesmo a escutar as arquibancadas em sua imaginação que a ovacionavam: MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA! MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA!* Filha, estamos muito orgulhosos de você! Se formar em medicina nos deixou felizes, mas acertar o nome desse rapaz é extraordinário! Parabéns, nós te amamos! Sim, senhoras e senhores, ela é a vencedora do concurso de pronúncia de nomes esquisitos! E umas das únicas em toda a existência desse indivíduo! AEW…! AEW…! A torcida ia ao delírio!
Oi?
Seu nome, você não disse seu nome.
Ah, desculpa! Sou Márcia Alcântara. Preocupei-me tanto com o seu que esqueci de falar o meu, respondeu com as bochechas coradas de vergonha, encabulada.
Qual seu problema?
(Repito o que disse às enfermeiras.)
Deite-se na maca, por favor. Não, não, com as pernas pra cá. Tá vendo esses suportes? É pra colocar as pernas, mas você não precisa. É mera questão pra entender como funciona a maca. Homens ficam perdidos nesse consultório.
(Permaneço ouvindo atentamente e sem dizer nada).
Tire a camisa. Hum… é, tem algo aqui. Vou chamar um assistente para conferir.
WILHEIM! (É a voz de um homem dessa vez, exultante, cujo dia parece ter sido de felicidades sem fim.) Tudo bem? O que acontece contigo, meu chapa? (Repito a história outra vez.) Beleza. Ó, faz assim. E me indica uma série de posições com os braços para medir visualmente a assimetria de minhas mamas. Depois me examina com as mãos e sentencia: Definitivamente, há uma discrepância no quadrante superior. Sai alguma secreção? Não? Estranho… melhor fazer ultrassom, Ana. Tchau, boa sorte, rapaz.
Mais uma hora de espera. Uilheimi, por favor.
O gel vai ser gelado, no entanto faz demasiado calor, né? Bom que refresca! Qual a história? (Conto agora com maior precisão de detalhes, em vez de “pedra” digo “algo similar a cisto”, em vez de “peito”, refiro-me a “mama direita, do quadrante superior”. Em que especialidade você acabou de passar? Clínico, cirurgião?
Ginecologista.
Gineco? Uau… Interessante. Pois bem, fique tranquilo. Nada de cisto, nem tumor, nem relevante alteração estrutural em seu tecido mamário. São apenas glândulas a mais e inchadas, geralmente provocadas por desequilíbrio hormonal. Volte à sala de espera que a doutora o chamará novamente. Até logo.
Meia horinha depois…
Uilraim, os resultam apontam que não há com o que se preocupar. Você fuma muita maconha? Toma hormônios? Injeta alguma substância ilícita? Toma bomba?
Oi…? (Fico uns dois segundos pra me recuperar, desconcertado, do choque das perguntas repentinas.) Não…
É que maconha adulterada pode conter elevada quantidade de hormônios. Curioso, né?
É… – respondi automaticamente, ainda sem conseguir racionar direito.
Vamos fazer assim: vou encaminhar você para a mastologista. (Pergunta iminente e escancarada em meu rosto: o que é isso?). Nome estranho, né? É a responsável por avaliar seu crescimento das mamas. Vai pedir os exames adequados e indicar o melhor tratamento, ok? Boa sorte e feliz ano novo!
Pra quando ficou agendada a consulta? Vinte e quatro de março, daqui a três meses.
Até lá, recebi a recomendação de aguentar firme, suportar a dor sem reclamar e ser paciente.
Justo. Consegui ser atendido e, mesmo com os impedimentos almejados pelo destino para me barrar, entrei para a história da medicina brasileira; descobri que, aparentemente, não tenho nada com o que me preocupar, fui tratado por meu nome de forma adequada e ainda por cima em apenas quatro horas e meia de espera fui examinado e saí com consulta marcada. O Sistema Único de Saúde é mesmo maravilhoso. Fui embora, de peito inchado, dolorido, pulsante, resiliente e feliz.

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*O nome  da médica foi trocado porque não imaginei que fosse publicar uma crônica da experiência e, portanto, num pedi permissão para citar seu verdadeiro nome ^^

Publicada em 05/01/2014

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Minha primeira consulta ginecológica

     

Que é que você está sentindo?
Olha, meu peito direito está inchado, como se tivesse uma pedra aqui dentro, dói bastante. Já tomei antiinflamatórios por 15 dias, esperando que fosse uma lesão muscular, mas não desinchou.
Hum… tá. (e continuou tomando anotações, ainda sem me encarar, por quase meio minuto. Parou. Agora me fita compenetrada.) É na mama mesmo, né?
Sim.
(Olha, então, para a outra enfermeira, mais nova, com um colar brilhante no pescoço, de óculos com lentes grossas e curiosamente em pé, mesmo existindo uma cadeira para que também estivesse sentada conosco.) Gineco, né?
É, também, acho… (diz num cochicho com sua parceira, como se tal artimanha me impedisse de escutar a ambas, que estão bem na minha frente. Em seguida, se vira, como se retornando do esconderijo secreto no qual analisavam minha situação.) Olha moço, tem casos raros de cistos em homens. Você vai passar na ginecologista, tudo bem? É só seguir o corredor, virar a terceira à direita e se informar no balcão.
Ginecologista…? Uau…! Serei um dos poucos seres humanos do sexo masculino capazes de dizer, de boca cheia e peito estufado – e ainda por cima inchado: Já passei no GINECOLOGISTA! Imagina, só? Ué, pera aí. Mas assim, sem mais nem menos? Poxa, sempre imaginei o quão marcante seria a primeira consulta em tal especialidade. Como uma mulher deveria estar preparada fisica e psicologicamente para se mostrar por inteiro a tal profissional da saúde.
E comigo seria assim, no susto, sem nenhuma preparação, nem conversa com minha mãe, nem conselho de amigas, nem incentivo paternal? Nas duas únicas vezes que passei num urologista, durante a infância e por conta de pedras nos rins, mal consegui falar! E agora?
Próximo!
Entendi então que devia sair da sala. Fui para o tal corredor. Em que momento tinha de virar à direita mesmo? Ou era à esquerda? Nossa, que calor infernal… o hospital encontrava-se abarrotado de crianças e velhinhos, todos sofrendo com a elevada temperatura do começo de janeiro. Espera prevista para ser atendido: no mínimo 6 horas. Isso se eu conseguisse por fim achar o bendito corredor, é claro…
Senhor, boa tarde. Por favor, onde fica o setor da ginecologia?
Por quê, vai marcar consulta pra alguém?
Não, senhor. Vou passar eu mesmo.
(O vigia da entrada principal me mira profundamente, cara fechada. Tem uns 45, 50 anos. Sério, carrancudo e aparentemente pensou ou que fui irônico ou que estava de deboche.) Não pode.
Mas senhor, é que estou com um problema na mama. É sério.
(Permanece a fitar-me por segundos em silêncio.) Próximo corredor à direita, mas deve ter algum erro. Ginecologista é pra mulher, cê num vai conseguir passar não. Pode ir.
Muito obrigado!, respondi com um enérgico e genuíno sorriso de alívio.
Seis passos. Exatamente meia dúzia de largos passos até chegar à entrada da área ginecológica. Em seguida, pertenceria gloriosamente ao hall masculino da fama: meus netos saberiam que um dia seu avô, bravamente, mesmo contra a vontade do vigia da portaria principal e sem o apoio de amigos e parentes, passou por ali! Bastava ir para o balcão de atendi…
Aonde o senhor vai, por favor?
Outro segurança? Ah, não… mas esse é daqui, já deve ter visto outros como eu. Vai ser tranquilo, certeza: Vou passar em consulta.
Consulta? O senhor deve estar procurando o U-RO-LO-GIS-TA (enfatizou bem a palavra para que eu a aprendesse e não mais confundisse as especialidades).
Não, é ginecologia mesmo – disse risonho, de alma escancarada, em busca da simpatia do vigilante. Resultado?
Hahahahaha! Tá de brincadeira, né? Como assim, rapaz? Cada uma viu… é pegadinha, é? Cadê a câmera? – sentia-se meu companheiro de traquinagem, achou engraçado o toque de descontração num ambiente em que as pessoas estão sempre bravas, posto que doentes e geralmente com dor.
Pois num é brincadeira, seu vigia.
Tudo bem, tudo bem. Vai marcar consulta pra alguma mulher, é?
Não…
Pois então siga por aqui, ó, que a urologia…
Como provar para esse senhor minha humilde necessidade ginecológica? Minha palavra lhe parece piada, meus pedidos lhe soam como pegadinhas, preciso de alguma autoridade alheia, um documento, um… papel! Aqui ó, o pedido da consulta, tem meu nome escrito nele.
Deix’eu ver… (de contente sua face tornou-se franzida. Parecia estar matutando como era possível um troço daqueles. Só podia ser erro… como que um homem poderia passar por ali? Ia fazer o que por lá? Coisa mais doida…)?
Posso passar?
Pode sim, é só passar no balcão.
Ufa! Mais uma barreira abaixo! Por fim: balcão.
Vim passar em consulta, por favor.
O que aconteceu? Continuo na próxima crônica neste link, que nessa já contei desaforo por demais da conta.

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Publicada em 03/01/2014

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As dificuldades de (tentar) ser um homem menos ‘macho’

Só percebi que existia um problema, de verdade, quando notei que passava metade do dia defendendo que não era homofóbico nem machista e a outra metade preocupado em provar que ‘era HOMEM’. Nesse exato momento, abriu-se uma caixa de pandora e pulularam do meu ser uma série de preconceitos com os quais tive de lidar. Precisaria ser ingênuo ou hipócrita demais pra continuar a fingir que tava tudo bem.

Ao buscar as raízes da minha construção pessoal de ser humano, notei algo importante: ‘ser homem’ nunca foi uma afirmação em si na minha vida, mas sim uma série de NÃOs. Fui ensinado que ser homem era ‘não ser viado’, ‘nem mulherzinha’, e evitar todas as características atribuídas a ambos os grupos.

Jamais vou me esquecer da primeira vez que fui apresentado, conscientemente, à condição de ‘macho’. Desde bem pequeno, gostava de sentar com as pernas cruzadas uma sobre a outra, posição geralmente associada a mulheres. Enquanto bebê, ainda vai, mas quando tinha mais ou menos uns 4 anos, na creche, algum colega disse: “Você senta que nem mulherzinha, nem sabe fazer igual homem!”, todos os outros meninos ao redor riram. Não sabia o que significava ‘ser mulherzinha’, tampouco por que cruzar as pernas me transformava em mulherzinha, muito menos ainda porque parecer mulherzinha era ruim, mas pela humilhação que estava passando era óbvio que não prestava.

A partir daí vieram somando-se, gradativamente, as oposições responsáveis por definir o que era ‘coisa de viado e mulherzinha’ e ‘ser macho’: Cuspir no chão, macho. Não fazê-lo, bicha ou puta. Dar abraço, viado. Apertar a mão bem forte para quase machucar, macho. Dizer que ama alguém, menininha. Cumprimentar-se com palavrões, super másculo. Ver meninas bonitas passando e gritar “ô lá em casa, sua gostosa!”, macho. Ficar de boa ao ver as mesmas meninas caminharem, mais gay impossível. Flexionar a perna para trás, como num alongamento, para ver se tinha chiclete ou cocô debaixo do tênis, em vez de dobrar a perna para a frente em forma de um 4, era ser bicha e mulherzinha ao mesmo tempo!

Pois assim fui crescendo e adaptando-me à moral machista, sem preocupar-me em questionar o porquê de ser tão ruim assemelhar-me a uma mulher ou a um homossexual, todo o mundo pensava assim, num carecia de explicação adicional. Quando a pedia, era aloprado pelos garotos mais velhos. Usar os argumentos de que todos tínhamos pai, mãe, parentes, fomos bebês, criancinhas e provavelmente assistíamos aos mesmos desenhos animados não colava. O mundo era simples, tinha definição do que era certo ou errado, bom ou ruim, macho e não-macho, bastava eu me adaptar que ficaria tudo bem. Só que não.

Chegou o momento em que foi insuficiente ‘provar que não era gay’ pra continuar a ser homem, precisaria também zombar dos outros que por ventura desconhecessem os códigos do macho-alfa, insultar os transgressores que queriam mascar chiclete de boca aberta ou usar brinco, defender nossa moral, seja lá o que isso significasse. O problema, probleminha tolo e de pouca importância, é que quando pentelhava alguém, eu chorava à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Sempre considerei repugnante a ideia de agredir às pessoas, mesmo que verbalmente. Machucava-me, e muito. Sabia que estava errado, no entanto, se não agisse igual aos outros garotos, viraria um pária social e seria zuado, provavelmente apanharia e meus amigos se afastariam de mim para evitar confusão com os machões de nosso convívio cotidiano. Aceitei machucar a mim mesmo e aos outros com medo de passar por um sofrimento ainda maior.

Eis que o menino cresce e, de uma tacada só, vira pai e universitário, duas transformações gigantescas. Na faculdade, de comunicações e artes, vários homossexuais assumidos sem o menor pudor desfilam pra lá e pra cá e há feministas a torto e a direito, nunca havia visto um troço desses, puro despudor. Não que jamais tivesse tido conhecidos gays ou paquerado umas ‘feministinhas rebeldes’, mas eram exceções, casos isolados, ignoráveis. Aquilo ali era uma zorra, maluquice da braba! Não fosse o suficiente, começou a pensar mil vezes antes mesmo de abrir a boca frente a uma mulher, pois toda garota a partir de agora o lembrava de sua filha, e ele tinha ainda menos vontade ou coragem de dizer algo obsceno – mesmo que achasse tal comportamento ‘natural’ para um homem-, pois dava-lhe ânsia imaginar que falariam as mesmas calhordices pra sua primogênita quando crescesse.

Em resumo, confrontado com um universo completamente distinto ao que estava habituado, precisei repensar boa parte de meus valores de macho e questioná-los um por um. No fim, a maioria deles não suportou meia-dúzia de reflexões verdadeiras e extinguiu-se. Isso porque acharam um lugar propício para deixar de existir, um espaço no qual meu escrotismo era a exceção, e não o contrário. Percebi que a influência de minha criação não me determinava, que poderia lutar contra mim mesmo, todos os dias, para ser menos zuado. E estava disposto a fazê-lo. Também foi crucial o apoio de pessoas que me entendiam como vindo de outra realidade e tiveram paciência de me ajudar a refletir, responder a minhas indagações por mais idiotas ou preconceituosas que parecessem, indicar leituras, canções, compartilhar vivências em vez de me tachar de homofóbico filho da puta e sem salvação e, automaticamente, me excluir, como fizeram outros tantos.

Tem sido difícil, perdi amigos. Muitos não engoliram esse negócio d’eu começar a cumprimentar os parceiros com abraço e beijo no rosto, de sentar de perna cruzada e falar em amor, de conversar sobre sentimentos e não ter vergonha de chorar e pedir ajuda, de afastar-me cada vez mais de uma definição de homem para aproximar-me de uma concepção de ser humano. É como se eu tivesse virado viado ou fêmea. E mais indigesto ainda: como se não ligasse para o fato de parecer viado e/ou fêmea.

Pois a vida segue. E na jornada por tornar-me um ser humano menos repugnante venho conquistando novas e lindas amizades, descobrindo o quanto de machista ainda tenho em mim sem perceber e brigando contra tais características, explicando para as amigas feministas que abro as portas para os meninos também e portanto não deveriam xingar-me quando o faço instintivamente, contando para minha mãe sobre como foi usar uma saia pela primeira vez, influenciando minha filha a questionar e refletir sobre a concepção de que menina tem de usar rosa e brincar de boneca e, neste exato momento, escrevendo um texto para esclarecer para mim mesmo e aos amigos, velhos ou novos, o momento que tenho vivido.

Por fim, aproveito para agradecer aos corajosos que até aqui chegaram e pedir desculpas, de verdade verdadeira, a todos com quem já fui extremamente machista nesses poucos anos de vida. Não tenho como justificar meus atos, mas é possível contextualiza-los, problematizá-los e, assim, admitir que cometi muitos erros. Bora que a batalha continua e ainda tenho muito do macho que existe em mim para afrontar!

[Mamá, ¿Vos qué futuro le ves a ese movimiento por la liberación de la mujer? No, nada… olvídalo!]

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Texto escrito em 26 de junho de 2013

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Um jegue em Itapevi

Animóvel, conversível de luxo transportando cebola e batata. gente corre, grita, fede a peixe, mamão e alho. cascos carcomidos e encharcados… toma! crianças riem, o couro rasga, a água pesa, o sangue voa, infecta o Ipad da patroa. língua no dente, guincho, é a vez das moscas-abutre.


Escrito em 20/06/2013

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Intercambista

A primeira vez que vi Madri
Achei que tinha ruas desengonçadas
Achei também que o metrô parecia uma rua.

Quando vi Madri de novo
Achei que suas caras eram muito mais ricas que sua Bandeira
(As caras – marrons, amarelas, caucasianas e negras – nasceram e ficam esperando a queda majestosa da Bandeira)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a Porta do Sol
E o espírito Republicano voltou a se mover sobre as águas do Manzanares.


Escrito em 13/06/2013

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Gravidade

Foi ao chão
Espatifou-se
Pedaços de uma existência
Destroços
A luz vermelha pulsante,
pisca-pisca da vida,
parou.
Restaram leds partidos ao meio
meu ódio misturado com os fios
Trinta reais
O preço nada tinha que ver
entranhas faiscantes que chiavam como se agonizassem
Maldito valor emocional.


Escrito em 13/06/2013

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Obra-prima do indizível

Livro de Clarice Lispector fundamenta-se na impossibilidade de racionalizar e verbalizar o que se sente

“O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?” É com esse questionamento de Joana, personagem principal de Perto do Coração Selvagem, que dou início a minha percepção acerca do primeiro romance publicado por Clarice, em 1944. A pergunta de certa forma resume o tema principal da obra pois, acredito, o “saber que se está vivendo” seria a habilidade de entender e explicar, para si mesma, os sentimentos em uma linguagem linear e pautada por uma racionalidade cartesiana. A história da personagem nos incita a questionar a obrigação e a capacidade humanas de traduzir o que se sente, por meio das palavras, sem assim empobrecer o viver. Com uma escrita cuidadosamente trabalhada, permeada de neologismos, rápida, de frases curtas e quase sempre em ordem direta, a autora não narra fatos, mas sim pensamentos.

O romance navega por fluxos de consciência da vida interior de Joana, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, imergindo às vezes no passado, às vezes no presente. Os “simples” fatos da existência da personagem pouco ou nada importam para os fins da narrativa. O que importa são seus pensamentos, forma como absorve e processa “o real”. O livro vai desvendando a sua visão de mundo e mostrando a construção da realidade, retratada como nada mais do que a forma como é vista e entendida por Joana e pelos demais personagens. Nos poucos diálogos que de fato acontecem, questiona-se a capacidade de se expressar e como o ato de verbalizar um sentimento o vai transformando simultaneamente: “A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto, mas o que eu digo.” Mesmo ainda na infância, quando essa aparece representada não por uma leitura presente da época, mas sim por uma expressão simultânea do vivido, Joana prefere o silêncio a ter de utilizar-se da fala para dar sentido às ações de sua vida, pois “tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar.”

A maneira verdadeira e direta com que a obra nos faz enxergar a consciência das personagens causa uma empatia quase automática. O romance se infiltra em nossa mente, gera comoção pelo sofrimento, pela clausura linguística daqueles seres, presos não por uma incapacidade de domínio das palavras, mas pela limitação que a linguagem traz dentro de si. E nos faz questionar se de verdade é possível viver profundamente a experiência de existir sempre preocupando-se em dar sentido a tudo o que se sente, ignorando-se ou definindo como loucura o que não pode ser dito. Existe uma valorização muito forte do onírico, a narradora nos envolve em situações mescladas de sonho e real, em que o real age, no máximo, como coadjuvante de um cenário mais importante, presente e forte. Que importa o que é realmente?, somos questionados pelo texto e tendemos a concordar que a importância do não-real é cotidianamente subestimada pelo ser humano. Como não ser tocado pela graça e sensibilidade construída por uma das diversas cenas oníricas narradas e vividas por Joana, como quando realiza uma tentativa (frustrada) de diálogo com o marido, Otávio, para tentar sair dos discursos pragmáticos e óbvios que geralmente desenvolviam juntos:

— Sonhei que as bolas brancas vinham subindo de dentro…

— Que bolas? De dentro de onde?

— Não sei, só que elas vinham…

Nada no romance é ‘contado’, no sentido comum do termo, mas escrito: as situações surgem por meio de metáforas, metáforas essas que se articulam em contextos e personagens. O enredo, a história provável, se constrói por quem lê, propõe-se uma coautoria com o leitor. Assim, é colocada em crise a representação do mundo com seus códigos simbólicos, desmonta-se a das pessoas entre si e cria-se um contexto em que se possa arquitetar o impossível. Apenas fora da ordem cartesiana, em que se divide um fenômeno para buscar uma compreensão posterior do todo, seria possível criar sentido. Para Joana, “parecia-lhe que se ordenasse e explicasse claramente o que sentira, teria destruído a essência de “tudo é um””, essência que configurava seu modo de viver.

Outro ponto importante da obra é o lirismo alcançado por meio da sinestesia. Somos convidados a misturar nossos sentidos e experimentar o mundo por meio de descrições como um cheiro frio de mato molhado. Com a sinestesia, vamos nos aproximando de uma experiência mais completa e ‘una’ do mundo, em que os cinco sentidos seriam insuficientes separados, mas juntos seriam capazes de proporcionar vivências até então impossíveis. Visão de mundo inimaginável para todos que admiravam e ao mesmo tempo temiam Joana por seu jeito singular de se entregar inteiramente a cada fenômeno que chamasse sua atenção, por mais corriqueiro ou inoportuno que fosse. Dessa forma, sempre questionadora e perdida dentro de si, a personagem pensava que quanto menos inteligente se é, mais se compreende a vida, e por vezes sentia inveja de quem vivia compreendendo a vida por não ser suficientemente inteligente para não compreendê-la. E, depois de muitas reflexões, idas e vindas, até a última linha permanece insolúvel o dilema do romance: “O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?”. Resta-nos, pois, o desafio de vivenciar a pergunta e experimentar o processo.


Texto escrito em 02/05/2013.
Para os que tiverem curiosidade e vontade de ler o livro,  segue o arquivo em PDF da obra neste link para download: CLARICE LISPECTOR – PERTO DO CORACAO SELVAGEM

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