Anacleanísio

Anacleanísio Juvenal De Almeida. Este era o nome do Almeidinha.
Estava, assim como costumava fazer todo o santo dia, esperando o ônibus 175L, que fazia a travessia em todo o bairro da Lapa, e o deixava na esquina da Marechal Deodoro.

De lá, precisava andar mais três quadras para chegar à sua casa. Era uma casinha modesta. Tinha um portão de madeira, uma das janelas só abria pelo lado de dentro e a laje ainda não estava completamente pintada. Laje que fora feita com a ajuda da “amizade” do bairro, em pleno domingão da semana passada.

Tudo acontecendo ao som do Jorge Aragão, com aquele samba que não pode faltar! Acompanhado, para tornar tudo uma delícia, por aquelas batidas e caipirinhas feitas pela sua amada, Mariana. Ah, essa sim! Era sua razão de viver! Ela e o Juninho! Seu rebento tinha apenas 3  aninhos e já era bom jogador! Igualzinho ao pai!

Enquanto caminhava em direção ao terminal refletindo sobre sua vida, ouviu uma voz:
— Almeidinha! Há quanto tempo!
— Cláudio, meu amigo!
— Você anda sumido rapaz! Como anda a família? E as peladas lá no bairro, não vai mais aparecer não?!
— A família tá ótima! Eu apareço sim. É que nesse novo emprego eu trabalho demais, daí no fim de semana só quero descansar e curtir a família. Mas pode deixar que apareço pra marcar uns gols neste fim de semana.
— Estamos esperando para ver se ainda é o Almeidinha goleador de sempre. Almeidinha… aquele ônibus não é o seu?

Aparece, adentrando o terminal, um ônibus laranja, com algumas janelas quebradas, um barulho de motor ensurdecedor e uma faixa escrita horizontalmente: Transporte Seguro LTDA. Almeida pensava que o dono desta frase devia ser um comediante, ou coisa do gênero. Seguro… Ah, tá bom!

— Opa! Deix’eu correr porque esse já veio lotado. Até mais, Cláudio!
Enquanto Anacleanísio corria para alcançar o ônibus, sua carteira caiu. O ônibus estava lotado! Se saísse não entrava mais.
— Cláudio pega minha carteira, por favor! Amanhã eu vou bater aquela pelada e já busco ela.

O ônibus 175L partiu e Cláudio foi buscar a carteira do amigo. Porém, no meio do caminho, avistou a alguns metros de distância, que um garoto tinha pegado o objeto e já estava levando-o embora.

— Ei garoto, essa carteira é do meu amigo. Pode me devolver, por gentileza?
— Ah, tio! Como sei que você não quer a carteira pra você mesmo? Eu achei, então é minha.
— Mas eu tô dizendo que é do meu amigo.
O garoto revirou a carteira e achou uma identidade.
— Qual é o nome dele?
— Anacleanísio.

O pivete com a cara mais sacana do mundo:

— Anacleanísio do quê?

O rapaz deu-lhe um peteleco e pegou a carteira.

— Muleque safado! Onde já se viu? Quem acerta Anacleanísio não precisa acertar sobrenome!

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Texto escrito em 2008.

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