Avó invisível

Você não me conhece, mas eu sou seu neto. Não sei quase nada ti, escutei bem pouco ou quase nada sobre tua existência. Acho que teu nome é Maria, mas num tenho certeza. Tá escrito no RG da minha mãe, eu já li algumas vezes, mas são somente palavras soltas, sem um rosto ou memórias por trás, muito difícil de lembrar. Você morreu quando quase todos os seus filhos eram muito pequenos, talvez mal tenha podido vivenciar o que significou pra ti ser mãe.

Num sei se você gostaria de me conhecer, sou meio esquisitão e bastante confuso, além de falar palavras engraçadas na maior parte das vezes, palavras que são difíceis de entender, mas fazem as pessoas sorrirem. Você sorria bastante? Do que é que achava graça no universo? Você morava numa cidade pequena, com fazendas, animais, água buscada no poço, banho frio. Já eu… sou cria de uma das cidades mais populosas desse mundão doido, cresci e vivo num ambiente muito diferente do seu.

Será que a gente teria muita coisa em comum? Será que a gente ia se entender? Num faço ideia, mas sinto sua falta. Sempre pensava em você quando via as outras crianças interagindo com suas avós. Parecia tipo uma versão de mãe que é boazinha, sabe? Que num bate, que dá bronca de leve e segundos depois já tá acariciando. Que sempre nos defende quando fazemos besteira, que conta um montão de histórias de um mundo antigo, que de tão diferente parece até folclore, conto de fadas do sertão.

Queria poder ouvir suas histórias sobre como era minha mãe quando criança. Queria poder me aproximar de você e dela ao mesmo tempo. Uma versão dela que nem mesmo ela lembra direito como foi. Queria poder ter tido você por perto, pra ir pra sua casa no fim de semana e receber mimos. Queria ter estado ao teu lado, você me vendo sempre como uma criança e me tratando como um verdadeiro catatau, não como um mini adulto que “deveria ser alguém na vida” e essas paradas todas com as quais a maior parte dos pais se preocupa. Queria ter aprendido contigo como é ter uma avó, pra quem sabe ter uma referência própria, vai que um dia chega a minha vez.

Queria poder me inspirar em ti. Queria poder segurar a sua mão, deitar no teu colo, escutar sua voz. Será que você falava engraçado também? Será que puxei a cor dos teus olhos? Acho que nunca vou saber, mas sinto que sim. Espero que você esteja bem, espero que fique contente por saber que mesmo sem te conhecer num me esqueci de ti. Que a gente possa se encontrar quando também chegar a minha hora. Beijo e descanse em paz.

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