Dançar é importante, Porra

– Boa noite, tudo bem? Tô inscrito pra aula demonstrativa de Soltinho, que começa em alguns minutos. Mas eu queria pedir desculpas antecipadas porque eu tô morrendo de medo e acho que vou desistir e ir embora mesmo antes de começar. Perdão.

– Oi? Como assim?! Pera, respira. Vamos lá. Fala comigo. Medo de quê?

– Num sei, são vários, hehe (dando aquela risadinha nervosa de quem sente que perdeu o controle da própria vida).
– Calma, vamos analisar cada um deles, um por um, ok? (ela disse isso com uma voz acolhedora, calma e um sorriso amável no rosto que me deu segurança de falar)

– Tô com medo de passar vergonha, porque eu não faço ideia de como controlar meu corpo. Também tô com medo porque não sei dançar e vão me achar ridículo, é sério, sou beeeeeem ruim. Ainda por cima tenho medo de ficar frustrado porque eu vou pedir pro meu corpo se mover de determinada maneira e tenho certeza que ele não vai me obedecer, já tentei antes, é desesperador, saca? Deve ter mais coisa aí, mas só consigo pensar nesses agora (tudo isso com um sorriso vergonhoso, amarelo e pensando: “nunca vi essa moça antes e ela vai me achar completamente insano ^^ ”).

– Beleza. Vamos falar sobre cada um deles, um a um, tudo bem? Primeiro, é normal não saber controlar o próprio corpo. A gente passar a maior parte do dia só se mexendo de forma quase maquinal. Usa o corpo pra sentar, levantar, andar, digitar, dirigir, fazer alguma atividade repetitiva e cotidiana, essas coisas. Daí dá medo mesmo quando imagina se mexer de acordo com uma música e com passos que não “fazem sentido”, quer dizer, que não tem uma função financeira (trabalho) ou pragmática (se locomover pra ir a algum lugar, por exemplo). A dança é um fim em si mesmo, aqueles movimentos têm como única finalidade serem como uma “poesia”, mas com o corpo. A beleza da dança independe de um por que racional, entende?

Aí vem a segunda parte que cê falou, de não saber dançar e achar que vai pagar mico. Você se inscreveu numa turma iniciante, ninguém aqui sabe dançar e deve estar com receios parecidos com os teus, é normal, você não é o primeiro e nem vai ser o último, fica tranquilo. E você não conhece o “alfabeto” da dança. Aqui, não importa se você sabe se comunicar bem verbalmente ou não, se tem um vasto conhecimento de idiomas, medicina, física etc. Quer dizer, seja lá quem você for, se nunca dançou, vai começar do zero. Vai aprender um novo alfabeto, em que o corpo todo é a “boca”, vai conhecer cada uma das letras e pouco a pouco aprender a formar “palavras” e aí vai conseguir manter um diálogo com outras pessoas, tudo isso sem ficar pensando muito. Aliás, quanto mais você pensa pra saber se tá pisando certo, se tá fazendo o movimento mais adequado, se num tá dançando torto, mais você se embanana. Aqui a ideia é sentir e entender que o corpo vai se adequando por si só, nosso corpo é incrível! Quanto menos você pensa, mais você dança e relaxa. Parece doideira, mas pode botar fé que vai dar certo.

E, por fim, sim, seu corpo num vai te obedecer assim de cara. Você vai ver um movimento, pensar ele na cabeça e tentar reproduzir e vai sair bem diferente do que você imaginou. Mas isso acontece com qualquer atividade física, é tudo questão de treino. Já fez alguma arte marcial ou algum esporte? Num é porque você vê algum realizar um golpe ou uma jogada que você vai fazer igualzinho de primeira, é preciso treino. Quanto mais cê treina, melhor cê fica, simples assim.
Mais algum medo?

– É… (aquelas explicações todas dela me acalmaram demais e me trouxeram uma curiosidade imensa, que troço maluco era aquele em que quanto mais eu pensava menos a coisa fruía? E como assim um outro alfabeto que eu desconhecia e teria de aprender letra por letra…?! Vou com medo mesmo, bora ver no que dá), vou tentar fazer a aula. Muito obrigado pela sua atenção, você é uma pessoa muito especial.

– Hehe, de boa, vai lá curtir e depois me conta.

Comecei a aula duro feito um pedaço de pau e falando feito um tagarela, mas corporalmente “mudo”. Pouco a pouco, pensei menos, fui me silenciando verbalmente e senti mais. Fui tendo menos medo de passar ridículo ou pisar no pé das pessoas, e daí foi ficando gostoso, vinha crescendo uma energia que me banhava por inteiro e me deixava contente, com vontade de mexer até o dedo mindinho de tanta alegria e vontade de “falar” naquele novo idioma, repetindo cada uma daquelas palavras como se fosse uma criança que aprendeu uma expressão nova e não pára de repetir.

É impossível, de verdade verdadeira, explicar precisamente a experiência que vivi, porque ela não pertence a esse mundo das palavras ditas ou escritas, é de outro universo, o dançado. Fiquei pasmo que existisse todo um universo lindo, poético, enérgico que só a preula e que não importava quão cansado eu estivesse, quantos litros de suor pingavam de mim, eu só queria continuar dançando e dançando e eu era a definição de êxtase em pessoa, quando a aula acabou eu só conseguia pensar: “quero que chegue a próxima logo!”.

Naquele dia percebi que dançar num é tipo “bacaninha”, uma paradinha que pode ser legal e tals. Não, é uma necessidade humana. Algo único cujo valor só dá pra entender depois de experienciar, algo que nos torna mais completos. Dançar não é só bonito, é humanamente essencial. Ouso dizer que é primordial para qualquer um que deseja viver plenamente, deseja mais do que somente existir.

Texto baseado na primeira aula de dança que tive na vida, num lugar muito especial chamado Locus Danças, no fim do ano passado. Muito obrigado a todo o mundo que me ajudou naquele momento tão especial ^^

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