Das vezes em que brochei

Hoje decidi falar sobre as duas vezes em que broch… “Shhhhhh! Quê isso, Wil???!!!” “Num é assim que se faz, mano! Tem de dizer ‘um amigo meu uma vez brochou’ ou ‘tem um conhecido de um conhecido que eu ouvi dizer que brochou e…’, entendeu?”. Pois é, amigos cuecas de plantão, sei bem que falar sobre momentos de impotência é um enorme tabu entre nós e é exatamente por isso que decidi escrever este texto. Como assim? Segue lendo que cê vai entender melhor.

Tinha sido um dia longo. Muitos problemas no trabalho, a vida que em mim insistia em existir estava nebulosa, cinzenta, triste. Estava chegando do trampo, com olhos perdidos no vazio eterno daquele corredor sem fim. “Wil! Boa noite, vem cá!”. Uma voz me invocava, chamava minha atenção pra fora de mim mesmo. Ao olhar, percebi que era uma colega, havíamos sido apresentados tinha bem pouco tempo, ela me tratava super bem e parecia ter um queda por mim. Eu sentia um grande carinho por ela e alguma atração.

Respondi ao seu chamado, ela fumava e me pediu pra sentar ao seu lado e conversar. Não tive forças pra dizer nem que sim nem que não, só fui. Conversamos por mais ou menos uma hora. Quando por fim resolvi partir: “Wil, posso ir com você?”. Hã? Fiquei alguns segundos pra entender o que significava aquela pergunta e como eu deveria respondê-la. Deixei um sorriso escapar dos lábios e segurei sua mão.

Em minha habitação trocamos carícias, demos risadas, falamos besteiras. Tudo estava gostoso e eu não via razão de parar nem tampouco de avançar, só queria estar ali, nada mais. Eis que minha parceira de brincadeiras decidiu tomar a dianteira e despir-me. Não queria, mas meu orgulho masculino me silenciou. Seria um fraco ao admitir que eu, enquanto homem, e que decidiu aceitá-la em meu quarto, não queria iniciar o coito. Decidi só fingir que estava tudo bem. De repente chegar ao gozo rapidinho e pôr fim à inquietante experiência.

Grande tolice. Achar que a razão ia ser suficiente pra sacanear minha não vontade. Brochei. Em questão de segundos meu corpo se rebelou contra minha estupidez e me deixou na mão. Nem precisei buscar uma desculpa qualquer, ela mesma já foi dizendo: “Pobrezinho, você aí todo cansado e eu pedindo um terceiro turno do proletariado. Tá tudo bem, fica tranquilo.” Entristecido, sentindo-me um traíra do universo masculino, um ‘frouxo’, nem soube o que responder. Só fiquei ali jogado, estirado na cama, sem dizer nada, novamente perdido dentro de mim. Ela me deu um beijou carinhoso e partiu.

Com certeza foi o cansaço, num encana, Wil, pensei. Só que eu já havia me relacionado sexualmente em contextos de muito mais desgaste físico do que aquele.
Então é porque num rolou uma química e tals. Mentira. Havia sim atração suficiente pra que eu desejasse compartilhar meu leito com aquela mulher.

Só pode ser porque eu estava com a autoestima baixa naquele dia, sentindo-me feio, chato e não atrativo. Nah, tampouco essa resposta ornava. Aquela moça estava, minutos antes, fazendo-me sentir exatamente o contrário disso tudo.

Então era claro que… acabaram-se as desculpas clichê. Eu sabia que brochei simplesmente porque não queria transar naquela hora, não tava a fim, simples assim. Mas não soube dizer não. Faltou-me coragem de admitir para ela, e pra mim mesmo, que não queria sexo. Era como se além dela e de mim ali na cama estivesse a pressão de todos os homens da terra me dizendo: “pára de frescura, seu merda! Começou agora aguenta!” “Cê é homem ou não é?!” “Ih… que vacilão!”

O mais maluco foi que depois de brochar eu percebi que não me sentia menos homem. Que minha genitália, símbolo máximo da minha expressão de masculinidade, ter negado fogo não me fez menos eu do que eu era. Foi confuso, me senti estranhamente culpado, como se eu tivesse que estar desolado por ter brochado, mas era o contrário, estava de certa forma aliviado. Como se tivesse cometido um crime e estivesse me sentido bem em vez de querer me entregar pra polícia do sexo e admitir que eu não deveria mais ter o título de “homem”, posto que não teria agido como um. Mentalmente eu repetia: obrigado, corpo, por ter me impedido de fazer algo que eu claramente não queria. Obrigado por ter dito o não que eu não soube dizer. Dormi com o coração leve e a alma tranquila.

Na manhã seguinte simplesmente fingi que nada tinha acontecido, guardei essa memória num baú trancado a sete chaves de meu inconsciente e pouco a pouco fui me afastando da mulher que viveu aquela cena comigo, estar perto dela me lembrava do baú e eu não queria mais pensar nele, nunca mais. Tampouco podia falar sobre o ocorrido com amigos, perguntar se já tinham vivido algo parecido ou mesmo buscar acolhimento. Já viu algum homem conversar sobre ter brochado por aí nas rodas de amigos? Você, cueca de plantão que chegou até aqui, já falou sobre alguma impotência sexual sua? (sim, ambos sabemos que já aconteceu alguma vez, pode pular a parte de negação) Provavelmente nunca o fez, porque ninguém nunca fez o mesmo contigo e há um acordo tácito de que esse num é um tema do qual se deve falar e ponto final.

Acontece que, passados alguns anos, vivenciei a experiência de brochar uma segunda vez. Num contexto, diga-se de passagem, quase igual ao anterior. E, mesmo tendo trancado aquela memória por anos tentando esquecê-la, ali, naquele momento, ela estava fresquíssima na memória, já sabia de antemão que ia brochar (e até estava torcendo pra que acontecesse e meu corpo me tirasse novamente daquela desconfortável situação sem que eu precisasse dizer ‘não’). Doido, né? O problema é que mais uma vez eu não soube como lidar com a situação e me afastei de uma potencial grande amiga, porque vê-la me machucava e me lembrava da agonia de não ter coragem de conversar comigo mesmo sobre a brochada.

Pois eis que, cansado de me imaginar perdendo mais pessoas queridas por medo de falar sobre o tema, resolvi encarar-me e expurgá-lo aqui nesse texto. Decidi que seria essencial esclarecer para outros como eu que é importante saber se tratar com carinho e cuidado e aprender a dizer não, até mesmo pra compreender a importância de quando uma companheira o diz e nós, homens em geral, temos uma dificuldade absurda de aceitar tal negativa. Vem aquele rolê de “você não me ama mais?”, “tô me sentindo rejeitado” e coisas do gênero.

Resumindo: meninos, brochar faz parte da vida sexual, vai acontecer vez por outra com todo o mundo e tudo bem. Você vai continuar sendo homem depois do ocorrido, o pipi não cai, fica tranquilo. Às vezes, no entanto, uma mera conversa sincera evita a necessidade de jogar a responsabilidade pro falo e impede o fim de relações, mesmo de amizades, que poderiam ser belas e duradouras. E se quiser conversar com alguém, pode contar comigo. É nóis 😉

—-

Wilheim Rodrigues, 25/02/2018

Anúncios
Esse post foi publicado em Reportagens. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Das vezes em que brochei

  1. Fora que além da cobrança de ser o “machão”, tem aquela de que você, acredito assim como eu, não é um macho alfa que tem sexo todo dia e toda hora a disposição, então perder uma oportunidade fica aquela de quando será a próxima, então existe uma pressão de aproveitar o máximo, como uma criança faminta que sente culpa ao recusar um prato de comida pois não sabe quando terá o próximo (ou se vai ter)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s