Em busca de atendimento ginecológico, parte final

Conforme o prometido, continuo a seguir a epopeia iniciada na crônica anterior (que você pode acessar aqui, caso ainda não tenha lido a danada).

Vim passar em consulta, por favor.
(Eternos segundos de silêncio com olhar de peixe morto em minha direção depois, como se tivesse questionado, em seu interior mais profundo, o próprio sentido da vida e retornado para contar-me uma revelação superior, disse) Aqui é o setor de ginecologia, senhor.
Sério? Ginecologia? Não acredito! Rapaz, mesmo com dois seguranças querendo me convencer de que aqui era esse setor – ao qual eu não pertenço e do qual tenho de manter-me afastado -, com todas as placas dessa ala indicando que tal especialidade AQUI atende às almas necessitadas, e com a indicação por escrito das enfermeiras da triagem mandando-me pra cá, juro, pensei que fosse a urologia, que é lugar de homem de verdade, né?! Ufa, ainda bem que me esclareceste a situação com tua sabedoria suprema, ó, grande atendente iluminado! Por fim, esse insano pecador pode redimir seu erro e encerrar a tola busca. Muito obrigado, ó, presença eminente do universo hospitalar que tudo sabe e tudo vê!
Foi a primeira resposta que me veio à mente, é claro. Só que como o peito doía e comprar briga com o balconista não tinha pinta de que ia ajudar, limitei-me a responder: Eu sei. Olha aqui o papel, por favor.
Simples. Tudo resolvido. Incrível o poder esclarecedor daquele pequeno pedaço de árvore morta. O que eu dissesse soava como latidos incompreensíveis ou mentiras descabidas a meus interlocutores, no entanto algumas letras impressas validavam o aparentemente impossível, absurdo. Virava verdade instantânea, como num passe de mágica.
Passadas apenas duas horas, ouço uma voz feminina, aguda: Wilheim!
Estranho. Alguma conhecida aqui na sala de espera? Sustento o olhar na direção do som e encontro uma bela mulher, alva, de saia preta, mais ou menos 29 anos, brincos minúsculos e reluzentes, com o nome no jaleco bordado à mão e a face extremamente ansiosa, esperando descobrir o ser humano que responde por aquele nome excêntrico. Coloco o livro na mochila, desengonçado, e me apresso ao seu encontro.
Falei certinho, né? UILRAIM. É assim que se pronuncia?
Sim.
As pessoas sempre acertam?
Não, você é uma das únicas pessoas a fazê-lo de primeira – disse satisfeito pela preocupação daquele ser em chamar-me pelo nome corretamente.
Sabia! Nome difícil o seu! Mas tinha certeza que acertaria! (Seu rosto exaltava alegria, cheguei mesmo a escutar as arquibancadas em sua imaginação que a ovacionavam: MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA! MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA!* Filha, estamos muito orgulhosos de você! Se formar em medicina nos deixou felizes, mas acertar o nome desse rapaz é extraordinário! Parabéns, nós te amamos! Sim, senhoras e senhores, ela é a vencedora do concurso de pronúncia de nomes esquisitos! E umas das únicas em toda a existência desse indivíduo! AEW…! AEW…! A torcida ia ao delírio!
Oi?
Seu nome, você não disse seu nome.
Ah, desculpa! Sou Márcia Alcântara. Preocupei-me tanto com o seu que esqueci de falar o meu, respondeu com as bochechas coradas de vergonha, encabulada.
Qual seu problema?
(Repito o que disse às enfermeiras.)
Deite-se na maca, por favor. Não, não, com as pernas pra cá. Tá vendo esses suportes? É pra colocar as pernas, mas você não precisa. É mera questão pra entender como funciona a maca. Homens ficam perdidos nesse consultório.
(Permaneço ouvindo atentamente e sem dizer nada).
Tire a camisa. Hum… é, tem algo aqui. Vou chamar um assistente para conferir.
WILHEIM! (É a voz de um homem dessa vez, exultante, cujo dia parece ter sido de felicidades sem fim.) Tudo bem? O que acontece contigo, meu chapa? (Repito a história outra vez.) Beleza. Ó, faz assim. E me indica uma série de posições com os braços para medir visualmente a assimetria de minhas mamas. Depois me examina com as mãos e sentencia: Definitivamente, há uma discrepância no quadrante superior. Sai alguma secreção? Não? Estranho… melhor fazer ultrassom, Ana. Tchau, boa sorte, rapaz.
Mais uma hora de espera. Uilheimi, por favor.
O gel vai ser gelado, no entanto faz demasiado calor, né? Bom que refresca! Qual a história? (Conto agora com maior precisão de detalhes, em vez de “pedra” digo “algo similar a cisto”, em vez de “peito”, refiro-me a “mama direita, do quadrante superior”. Em que especialidade você acabou de passar? Clínico, cirurgião?
Ginecologista.
Gineco? Uau… Interessante. Pois bem, fique tranquilo. Nada de cisto, nem tumor, nem relevante alteração estrutural em seu tecido mamário. São apenas glândulas a mais e inchadas, geralmente provocadas por desequilíbrio hormonal. Volte à sala de espera que a doutora o chamará novamente. Até logo.
Meia horinha depois…
Uilraim, os resultam apontam que não há com o que se preocupar. Você fuma muita maconha? Toma hormônios? Injeta alguma substância ilícita? Toma bomba?
Oi…? (Fico uns dois segundos pra me recuperar, desconcertado, do choque das perguntas repentinas.) Não…
É que maconha adulterada pode conter elevada quantidade de hormônios. Curioso, né?
É… – respondi automaticamente, ainda sem conseguir racionar direito.
Vamos fazer assim: vou encaminhar você para a mastologista. (Pergunta iminente e escancarada em meu rosto: o que é isso?). Nome estranho, né? É a responsável por avaliar seu crescimento das mamas. Vai pedir os exames adequados e indicar o melhor tratamento, ok? Boa sorte e feliz ano novo!
Pra quando ficou agendada a consulta? Vinte e quatro de março, daqui a três meses.
Até lá, recebi a recomendação de aguentar firme, suportar a dor sem reclamar e ser paciente.
Justo. Consegui ser atendido e, mesmo com os impedimentos almejados pelo destino para me barrar, entrei para a história da medicina brasileira; descobri que, aparentemente, não tenho nada com o que me preocupar, fui tratado por meu nome de forma adequada e ainda por cima em apenas quatro horas e meia de espera fui examinado e saí com consulta marcada. O Sistema Único de Saúde é mesmo maravilhoso. Fui embora, de peito inchado, dolorido, pulsante, resiliente e feliz.

—–
*O nome  da médica foi trocado porque não imaginei que fosse publicar uma crônica da experiência e, portanto, num pedi permissão para citar seu verdadeiro nome ^^

Publicada em 05/01/2014

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