As dificuldades de (tentar) ser um homem menos ‘macho’

Só percebi que existia um problema, de verdade, quando notei que passava metade do dia defendendo que não era homofóbico nem machista e a outra metade preocupado em provar que ‘era HOMEM’. Nesse exato momento, abriu-se uma caixa de pandora e pulularam do meu ser uma série de preconceitos com os quais tive de lidar. Precisaria ser ingênuo ou hipócrita demais pra continuar a fingir que tava tudo bem.

Ao buscar as raízes da minha construção pessoal de ser humano, notei algo importante: ‘ser homem’ nunca foi uma afirmação em si na minha vida, mas sim uma série de NÃOs. Fui ensinado que ser homem era ‘não ser viado’, ‘nem mulherzinha’, e evitar todas as características atribuídas a ambos os grupos.

Jamais vou me esquecer da primeira vez que fui apresentado, conscientemente, à condição de ‘macho’. Desde bem pequeno, gostava de sentar com as pernas cruzadas uma sobre a outra, posição geralmente associada a mulheres. Enquanto bebê, ainda vai, mas quando tinha mais ou menos uns 4 anos, na creche, algum colega disse: “Você senta que nem mulherzinha, nem sabe fazer igual homem!”, todos os outros meninos ao redor riram. Não sabia o que significava ‘ser mulherzinha’, tampouco por que cruzar as pernas me transformava em mulherzinha, muito menos ainda porque parecer mulherzinha era ruim, mas pela humilhação que estava passando era óbvio que não prestava.

A partir daí vieram somando-se, gradativamente, as oposições responsáveis por definir o que era ‘coisa de viado e mulherzinha’ e ‘ser macho’: Cuspir no chão, macho. Não fazê-lo, bicha ou puta. Dar abraço, viado. Apertar a mão bem forte para quase machucar, macho. Dizer que ama alguém, menininha. Cumprimentar-se com palavrões, super másculo. Ver meninas bonitas passando e gritar “ô lá em casa, sua gostosa!”, macho. Ficar de boa ao ver as mesmas meninas caminharem, mais gay impossível. Flexionar a perna para trás, como num alongamento, para ver se tinha chiclete ou cocô debaixo do tênis, em vez de dobrar a perna para a frente em forma de um 4, era ser bicha e mulherzinha ao mesmo tempo!

Pois assim fui crescendo e adaptando-me à moral machista, sem preocupar-me em questionar o porquê de ser tão ruim assemelhar-me a uma mulher ou a um homossexual, todo o mundo pensava assim, num carecia de explicação adicional. Quando a pedia, era aloprado pelos garotos mais velhos. Usar os argumentos de que todos tínhamos pai, mãe, parentes, fomos bebês, criancinhas e provavelmente assistíamos aos mesmos desenhos animados não colava. O mundo era simples, tinha definição do que era certo ou errado, bom ou ruim, macho e não-macho, bastava eu me adaptar que ficaria tudo bem. Só que não.

Chegou o momento em que foi insuficiente ‘provar que não era gay’ pra continuar a ser homem, precisaria também zombar dos outros que por ventura desconhecessem os códigos do macho-alfa, insultar os transgressores que queriam mascar chiclete de boca aberta ou usar brinco, defender nossa moral, seja lá o que isso significasse. O problema, probleminha tolo e de pouca importância, é que quando pentelhava alguém, eu chorava à noite quando deitava a cabeça no travesseiro. Sempre considerei repugnante a ideia de agredir às pessoas, mesmo que verbalmente. Machucava-me, e muito. Sabia que estava errado, no entanto, se não agisse igual aos outros garotos, viraria um pária social e seria zuado, provavelmente apanharia e meus amigos se afastariam de mim para evitar confusão com os machões de nosso convívio cotidiano. Aceitei machucar a mim mesmo e aos outros com medo de passar por um sofrimento ainda maior.

Eis que o menino cresce e, de uma tacada só, vira pai e universitário, duas transformações gigantescas. Na faculdade, de comunicações e artes, vários homossexuais assumidos sem o menor pudor desfilam pra lá e pra cá e há feministas a torto e a direito, nunca havia visto um troço desses, puro despudor. Não que jamais tivesse tido conhecidos gays ou paquerado umas ‘feministinhas rebeldes’, mas eram exceções, casos isolados, ignoráveis. Aquilo ali era uma zorra, maluquice da braba! Não fosse o suficiente, começou a pensar mil vezes antes mesmo de abrir a boca frente a uma mulher, pois toda garota a partir de agora o lembrava de sua filha, e ele tinha ainda menos vontade ou coragem de dizer algo obsceno – mesmo que achasse tal comportamento ‘natural’ para um homem-, pois dava-lhe ânsia imaginar que falariam as mesmas calhordices pra sua primogênita quando crescesse.

Em resumo, confrontado com um universo completamente distinto ao que estava habituado, precisei repensar boa parte de meus valores de macho e questioná-los um por um. No fim, a maioria deles não suportou meia-dúzia de reflexões verdadeiras e extinguiu-se. Isso porque acharam um lugar propício para deixar de existir, um espaço no qual meu escrotismo era a exceção, e não o contrário. Percebi que a influência de minha criação não me determinava, que poderia lutar contra mim mesmo, todos os dias, para ser menos zuado. E estava disposto a fazê-lo. Também foi crucial o apoio de pessoas que me entendiam como vindo de outra realidade e tiveram paciência de me ajudar a refletir, responder a minhas indagações por mais idiotas ou preconceituosas que parecessem, indicar leituras, canções, compartilhar vivências em vez de me tachar de homofóbico filho da puta e sem salvação e, automaticamente, me excluir, como fizeram outros tantos.

Tem sido difícil, perdi amigos. Muitos não engoliram esse negócio d’eu começar a cumprimentar os parceiros com abraço e beijo no rosto, de sentar de perna cruzada e falar em amor, de conversar sobre sentimentos e não ter vergonha de chorar e pedir ajuda, de afastar-me cada vez mais de uma definição de homem para aproximar-me de uma concepção de ser humano. É como se eu tivesse virado viado ou fêmea. E mais indigesto ainda: como se não ligasse para o fato de parecer viado e/ou fêmea.

Pois a vida segue. E na jornada por tornar-me um ser humano menos repugnante venho conquistando novas e lindas amizades, descobrindo o quanto de machista ainda tenho em mim sem perceber e brigando contra tais características, explicando para as amigas feministas que abro as portas para os meninos também e portanto não deveriam xingar-me quando o faço instintivamente, contando para minha mãe sobre como foi usar uma saia pela primeira vez, influenciando minha filha a questionar e refletir sobre a concepção de que menina tem de usar rosa e brincar de boneca e, neste exato momento, escrevendo um texto para esclarecer para mim mesmo e aos amigos, velhos ou novos, o momento que tenho vivido.

Por fim, aproveito para agradecer aos corajosos que até aqui chegaram e pedir desculpas, de verdade verdadeira, a todos com quem já fui extremamente machista nesses poucos anos de vida. Não tenho como justificar meus atos, mas é possível contextualiza-los, problematizá-los e, assim, admitir que cometi muitos erros. Bora que a batalha continua e ainda tenho muito do macho que existe em mim para afrontar!

[Mamá, ¿Vos qué futuro le ves a ese movimiento por la liberación de la mujer? No, nada… olvídalo!]

—–

Texto escrito em 26 de junho de 2013

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