Obra-prima do indizível

Livro de Clarice Lispector fundamenta-se na impossibilidade de racionalizar e verbalizar o que se sente

“O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?” É com esse questionamento de Joana, personagem principal de Perto do Coração Selvagem, que dou início a minha percepção acerca do primeiro romance publicado por Clarice, em 1944. A pergunta de certa forma resume o tema principal da obra pois, acredito, o “saber que se está vivendo” seria a habilidade de entender e explicar, para si mesma, os sentimentos em uma linguagem linear e pautada por uma racionalidade cartesiana. A história da personagem nos incita a questionar a obrigação e a capacidade humanas de traduzir o que se sente, por meio das palavras, sem assim empobrecer o viver. Com uma escrita cuidadosamente trabalhada, permeada de neologismos, rápida, de frases curtas e quase sempre em ordem direta, a autora não narra fatos, mas sim pensamentos.

O romance navega por fluxos de consciência da vida interior de Joana, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, imergindo às vezes no passado, às vezes no presente. Os “simples” fatos da existência da personagem pouco ou nada importam para os fins da narrativa. O que importa são seus pensamentos, forma como absorve e processa “o real”. O livro vai desvendando a sua visão de mundo e mostrando a construção da realidade, retratada como nada mais do que a forma como é vista e entendida por Joana e pelos demais personagens. Nos poucos diálogos que de fato acontecem, questiona-se a capacidade de se expressar e como o ato de verbalizar um sentimento o vai transformando simultaneamente: “A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto, mas o que eu digo.” Mesmo ainda na infância, quando essa aparece representada não por uma leitura presente da época, mas sim por uma expressão simultânea do vivido, Joana prefere o silêncio a ter de utilizar-se da fala para dar sentido às ações de sua vida, pois “tudo o que mais valia exatamente ela não podia contar. Só falava tolices com as pessoas. Quando dizia a Rute, por exemplo, alguns segredos, ficava depois com raiva de Rute. O melhor era mesmo calar.”

A maneira verdadeira e direta com que a obra nos faz enxergar a consciência das personagens causa uma empatia quase automática. O romance se infiltra em nossa mente, gera comoção pelo sofrimento, pela clausura linguística daqueles seres, presos não por uma incapacidade de domínio das palavras, mas pela limitação que a linguagem traz dentro de si. E nos faz questionar se de verdade é possível viver profundamente a experiência de existir sempre preocupando-se em dar sentido a tudo o que se sente, ignorando-se ou definindo como loucura o que não pode ser dito. Existe uma valorização muito forte do onírico, a narradora nos envolve em situações mescladas de sonho e real, em que o real age, no máximo, como coadjuvante de um cenário mais importante, presente e forte. Que importa o que é realmente?, somos questionados pelo texto e tendemos a concordar que a importância do não-real é cotidianamente subestimada pelo ser humano. Como não ser tocado pela graça e sensibilidade construída por uma das diversas cenas oníricas narradas e vividas por Joana, como quando realiza uma tentativa (frustrada) de diálogo com o marido, Otávio, para tentar sair dos discursos pragmáticos e óbvios que geralmente desenvolviam juntos:

— Sonhei que as bolas brancas vinham subindo de dentro…

— Que bolas? De dentro de onde?

— Não sei, só que elas vinham…

Nada no romance é ‘contado’, no sentido comum do termo, mas escrito: as situações surgem por meio de metáforas, metáforas essas que se articulam em contextos e personagens. O enredo, a história provável, se constrói por quem lê, propõe-se uma coautoria com o leitor. Assim, é colocada em crise a representação do mundo com seus códigos simbólicos, desmonta-se a das pessoas entre si e cria-se um contexto em que se possa arquitetar o impossível. Apenas fora da ordem cartesiana, em que se divide um fenômeno para buscar uma compreensão posterior do todo, seria possível criar sentido. Para Joana, “parecia-lhe que se ordenasse e explicasse claramente o que sentira, teria destruído a essência de “tudo é um””, essência que configurava seu modo de viver.

Outro ponto importante da obra é o lirismo alcançado por meio da sinestesia. Somos convidados a misturar nossos sentidos e experimentar o mundo por meio de descrições como um cheiro frio de mato molhado. Com a sinestesia, vamos nos aproximando de uma experiência mais completa e ‘una’ do mundo, em que os cinco sentidos seriam insuficientes separados, mas juntos seriam capazes de proporcionar vivências até então impossíveis. Visão de mundo inimaginável para todos que admiravam e ao mesmo tempo temiam Joana por seu jeito singular de se entregar inteiramente a cada fenômeno que chamasse sua atenção, por mais corriqueiro ou inoportuno que fosse. Dessa forma, sempre questionadora e perdida dentro de si, a personagem pensava que quanto menos inteligente se é, mais se compreende a vida, e por vezes sentia inveja de quem vivia compreendendo a vida por não ser suficientemente inteligente para não compreendê-la. E, depois de muitas reflexões, idas e vindas, até a última linha permanece insolúvel o dilema do romance: “O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?”. Resta-nos, pois, o desafio de vivenciar a pergunta e experimentar o processo.


Texto escrito em 02/05/2013.
Para os que tiverem curiosidade e vontade de ler o livro,  segue o arquivo em PDF da obra neste link para download: CLARICE LISPECTOR – PERTO DO CORACAO SELVAGEM

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