Sobre Meninos e Deuses

Revista Babel, dezembro de 2012 (Em parceria com Eduardo Nascimento)

Raphael, 19 anos, começou aos 15 uma peregrinação por diferentes religiões, atrás do deus que o teria salvado da morte

Raphael Vaz - crédito Wilheim Rodrigues

“Na hora em que você encontrar a doutrina certa, receberá um sinal – disse o velho” – crédito Wilheim Rodrigues

Meu tipo de sangue não é muito comum e, numa noite, os médicos disseram que o estoque no hospital estava em baixa e talvez tivessem de me dar um remédio à base de ferro para estimular a produção da medula óssea. ‘Fudeu!’, foi a única coisa que pensei. Em meio a febres, decidi que não conseguiria me curar só com a ajuda dos médicos, na hora pensei ‘deve existir um Deus’, e fui ao único lugar onde podia ficar sozinho – o banheiro – para rezar e chorar, porque eu não choro na frente das pessoas”. Ao adormecer, não foi o mesmo sono perturbado das outras noites que o esperava, dormiu profundamente e acordou em um corredor branco.

Raphael Vaz, 19 anos, é um dos 284 mil moradores do distrito de Sapopemba, Vila Prudente, na zona sudeste de São Paulo. Sempre bem arrumado, com barba feita, camisa social e gel nos cabelos, é responsável pela administração financeira de 10 unidades de uma escola de idiomas, seu primeiro emprego.

Metódico, carrega consigo um caderno no qual registra todos seus gastos, seja o consumo de um chocolate ou o valor do almoço. Na mesma brochura também tem anotados objetivos para o ano, como plantar árvores e ler 20 livros. Vestibulando, no ano passado tentou engenharia. Neste resolveu prestar geografia, pois é um tema que também o interessa, mas tem nota de corte menor. Como não quer mudar da casa dos pais nem de cidade para estudar, descartou Unesp e Unicamp e afirma que sobrou-lhe apenas a USP como opção de universidade pública.

Nos pulsos, leva um relógio da Mormaii e uma pulseira dourada, “gosto muito de ouro, olha, meu marca-páginas é de ouro”. Nos dedos, anel com a cruz de Portugal. Filho caçula de dois irmãos, com mãe descendente de italianos e pai de portugueses, é torcedor da Lusa e se orgulha de dizer que já comeu muita sardinha na brasa no Canindé. Outra paixão é a pescaria, costuma ir a pesque-pagues em Itaquera com os amigos para relaxar. Com a família vai a shoppings e restaurantes aos domingos, quando todos têm mais tempo livre.

Estamos no Monumento à Independência, no Ipiranga, e Raphael diz que o corredor branco de seu sonho iria até o Museu Paulista, cerca de 200m à frente. O chão era cinza, como granito, as paredes forradas de portas dos dois lados. Tinha voltado a andar sem dificuldade, não sentia mais as dores da doença nem o lugar à sua volta. “Era muito silencioso, isolado, espaçoso, vazio. Eu ouvia pequenos ruídos, pássaros, barulho de vento e tudo me parecia ameaçador, confuso, perigoso. Senti-me desesperado e perdido, tive muito medo do que poderia significar aquele ambiente desconhecido…”

Seu pai é formado em publicidade e trabalha como gerente de uma fábrica de cerveja. Sua mãe fez cursos técnicos de administração e optou por ser dona de casa, apesar de ainda manter vivo o sonho de tornar-se veterinária. Com ambas as famílias dos genitores fechadas em seus próprios grupos étnicos, o improvável encontro dos pais se deu numa festa de debutante de amigos em comum, há 31 anos. “Ainda hoje tem desentendimentos porque a minha avó portuguesa não queria que meu pai casasse com não-portuguesas”, conta o rapaz.

Religião nunca foi um tema benquisto na família. Existe uma birra iniciada por seus avós: “Devido ao sofrimento de serem obrigados a mudar de país, achavam Deus injusto ou idiota. Não iam a batizados, casamentos ou missas e diziam ‘vou dar meu dinheiro para pastor?’”. Criados sob esse ponto de vista, seus pais não falam sobre religião em casa, simplesmente não é um tópico de discussão, mesmo que não se definam como ateus. O descaso com divindades prosseguiu, então, com os filhos. “Antes da doença, eu sabia que existia um Deus, mas não dava a mínima. Nunca tinha ido a uma missa. Quando ia a matrimônios ou batismos e perguntava sobre os santos e as pinturas, minha mãe dizia: ‘sei lá, esse povo é doido’”

“Da última porta, no extremo oposto do corredor, surgiu um senhor, de terno cândido, segurando um livro aberto.Ele tinha cabelo de lado e branco, um colete cinza por baixo do terno e barba muito bem feita, parecido com o Lima Duarte. O compêndio que carregava tinha capa de cor escura, marrom ou preto, similar à descrição que ouvira referente ao livro da vida
– “Qual é o seu nome?
– Raphael
– Raphael do quê?
– … Vaz
– Seu nome não está na lista, não é a sua hora”

Apesar de apreciar bebidas alcoólicas, principalmente vinho, Raphael afirma que jamais ficou bêbado. É a favor da castidade antes do casamento, é tradição em sua família: “Já tive 3 namoradas, tudo relacionamento sério. Eu não fico, nem adianta pedir.” Assina as revistas Veja, Você S.A. e o jornal Folha de S. Paulo. Gosta de filme de terror e ficção, ouve música eletrônica, MPB e pop.

Pássaro Preto (graúna) é parte do minizoológico de Raphael - crédito Eduardo Nascimento

Pássaro Preto (graúna) é parte do minizoológico de Raphael – crédito Eduardo Nascimento

Sistemático, segue diariamente o mesmo roteiro matinal: “Costumo levantar às seis horas todos os dias. Nunca coloco os pés no chão e não subo em minha cama antes de falar com Deus. Oro sempre ajoelhado, com a mente só no Senhor. Não uso ninguém como intermediário, nem mesmo Cristo. Apesar de acreditar bastante em Jesus, ainda tenho muita dúvida sobre sua divindade”. Em seguida vai cuidar de seus bichos. Tem quase um zoológico em sua casa, cria coelho, tartaruga, lagosta, gato, peixes e 14 pássaros. Depois é hora de ler, dar uma olhada no Facebook, tomar banho, almoçar e sair para chegar pontualmente à uma da tarde no trabalho.

Além de agradecer, Raphael também pede ajuda a seu deus, mas, diferentemente de parte dos religiosos, o jovem só costuma fazer demandas em situações que considera de extrema necessidade. Seu lema é “Deus só age no impossível”. Como exemplo, nos explica: “se você passar por problemas e eu puder te ajudar com dinheiro ou comida, não adianta EU pedir para o Senhor te ajudar, que ele não vai, de forma alguma. Cabe a mim tomar uma atitude”. Poderia sugerir alguma circunstância mais diretamente relacionada a seu presente, questionam os repórteres.“Um momento é o vestibular, a Fuvest. Não adianta pedir para Deus me ajudar a passar no vestibular. Ele já me deu a inteligência e a capacidade de estudar, só depende de mim.”

Então qual seria então um motivo suficientemente forte para realizar um pedido? “Tenho um amigo em Nova Iorque (Brooklyn) que tá sem dinheiro e com o teto da casa caindo [por ter sido atingido pelo furacão Sandy no fim de outubro]. Pedi para o Senhor ajudar esse meu amigo, pois eu sozinho não tenho condições. Quero em 5 dias levantar 5 mil dólares pra ele, vai ser bastante difícil mas muitos amigos já disseram que vão ajudar”. Outra característica capaz de expressar a importância dada às demandas junto ao onipotente é o hábito de jejuar para requisitar favores. “No dia em que fico de jejum compro a refeição e dou para um pobre, a privação tem de vir acompanhada de uma boa ação, nesse dia tampouco falo palavrão.”

Para Raphael, não ter o nome no livro significava estar morto e sem salvação, sua imaginação começava a andar pelo purgatório – ou inferno – quando se viu em outro lugar, havia cruzado uma das portas. A sala em que se encontrava em pouco se diferenciava do corredor, as paredes e o chão eram da mesma cor, chamou-lhe a atenção apenas a presença de alguns quadros na parede. Um olhar mais cuidadoso e cada quadro era uma placa, cada placa, o nome de uma religião.
– “Qual é a religião do Deus que me curou?
– Na hora em que você encontrar a doutrina certa, receberá um sinal – disse o velho”

Seus quatro avós são europeus. Do lado da mãe, são Italianos de Nápoles que vieram para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial. Já por parte do pai, vieram de Portugal. A avó lusitana ficou órfã de pai e mãe aos 8 anos. Decidida a abandonar seu vilarejo em busca de prosperidade, assim que atingiu a maioridade veio para o Brasil. Mas a partida foi mais difícil do que Luisa imaginara: “Ela conheceu meu avô pouco antes de vir para o Brasil. Aos 21 anos minha avó nunca tinha namorado ninguém.” Ambos nasceram em Pitões das Júnias, extremo norte de Portugal. Em 2001, o local contava com 201 habitantes de acordo com o site da região. “Meu avô veio onze dias depois da minha avó, só com pão e presunto defumado [jamón] na bolsa”

Muito próximo da avó Luisa, mais até do que dos próprios pais, Raphael tem uma procuração para administrar seus bens. O rapaz explica que boa parte de sua personalidade tem a ver com a influência dela em sua criação. Desde pequeno tem mais facilidade para discutir problemas com a avó, pois ela sempre diz quando gosta ou não de algo e explica o porquê. Já sua mãe é mais acostumada a tratar assuntos delicados de maneira indireta. O pai, cujo estilo de vida é mais centrado no trabalho para dar condições de vida adequadas à família, tem menos tempo para lhe dedicar. Luisa é uma senhora tradicional que venera a obediência. Quando os netos eram pequenos, se houvesse preparada uma mesa cheia comida e a avó estivesse à mesa, ninguém poderia comer até que ela desse um sinal de permissão.

Ao mesmo tempo em que promove uma doutrina ríspida de obediência, a avó demonstra seu lado brincalhão. Já com mais de 80 anos de vida, Luisa brinca de pular na cama com o neto. Também é muito querida no bairro em que mora. Raphael afirma que ao caminhar pelas ruas quando vai visitá-la os vizinhos comentam “Ah, você é o neto da portuguesa, né? Ela é muito legal”. O rapaz também não cansa de se gabar de quão bela é a avó, presente como plano de fundo da tela em seu celular. Nos mostra uma, duas, três fotos e conclui “É bonita ou não é? É linda demais minha avó!”

Para qualquer um, passar um tempo no hospital não é nada legal. Ainda mais para uma criança/adolescente. Eu sempre fui agitado, aplicado nos estudos, ajudava minha mãe com os deveres de casa e cuidava sempre dos meus animais.

De repente, me vi doente. Não sei se com todas as pessoas é assim, mas eu sentia dores no corpo todo, me sentia muito fraco, mais que dor. Não tinha apetite, não ficava de pé, a dor era daquelas que parece que você levou uma surra. Costumava ficar no hospital de um dia para o outro, depois voltava para casa, sem um diagnóstico definitivo. Até que numa das manhãs não tinha melhorado. Estava no Hospital Alemão Oswaldo Cruz e fiquei 15 dias, esse foi o pior momento, quando tive que me afastar de todos. Quando meus pais souberam qual era a minha doença, minha mãe chegou com cara de choro, meu pai não falava nada, só dizia que tudo ia ficar bem. Eu me senti impuro, como se eu tivesse Aids, e pedi pra eles não espalharem.

Espalharam. Parentes, amigos da família, colegas da escola, todos iam me visitar. Alguns falavam de Deus, das fofocas, da vida na escola, as brincadeiras que faziam, coisas do dia-a-dia, e conseguiam tirar minha atenção dali. Mas as visitas eram muito superficiais, era pouco tempo pra muita gente e cada grupinho ficava 20 minutos no máximo.

Lembro que no hospital eu li ‘O Pequeno Príncipe’ pela primeira vez, foi um presente de minha avó numa de suas visitas. À noite meu pais dormiam comigo ou eu ficava sozinho – nunca tive medo de dormir sozinho. Eu sentia que daria tudo certo, mas pensava à vezes no que aconteceria se não desse. De tanto ouvir falar, comecei a pensar no Deus sobre o qual me contavam.

Não deixava ninguém me ajudar no banheiro, minha mãe nunca viu meu corpo depois que eu me conheci como homem e não ando sem camisa em casa. No entanto, os remédios que eu tomava me faziam passar muito mal, na pior crise após receber medicamentos, não sentia direito meu corpo. Também tinha muita dificuldade para comer – obviamente a fraqueza era uma consequência -, não tinha forças para me levantar, me parecia fácil, mas meu corpo não ia.

Quando acorda, já está amanhecendo. Abre os olhos sem saber o que pensar, se tinha apenas sonhado ou se tinha de fato vivenciado uma epifania. A dúvida se desfaz com o tempo, daquele dia em diante começa a melhorar significativamente, em alguns dias já consegue segurar um copo de água. Seus pais, incrédulos, acreditaram que foram os médicos. Ele não.

“Voltei pra casa e agora estávamos endividados, devíamos pra todo o mundo, só não pra agiota”. Em sua casa há muitos quadros e pinturas espalhados. Na entrada, uma robusta coleção de miniaturas de índios norte-americanos. Na parede da escada, a pintura de uma árvore pensada para ser genealógica; no quarto de seu irmão, adesivos de bicicleta e skate nas paredes, no corredor, flores e borboletas. Ao entrar no quarto de Raphael, como esperávamos, tudo estava extremamente organizado, bem arrumado e separado em pastas e caixas. Tem um xadrez com peças representando divindades egípcias e uma coleção de pedras exóticas. Há um quadro de Jesus Cristo no quarto dos pais dele, presente de uma amiga que mora em Munique, na Alemanha.

Como consequência dos gastos no hospital e de ter uma enfermeira em casa, Raphael passou a estudar em escola pública, o pai vendeu um dos carros, viagens, passeios e até mesmo guloseimas como iogurtes e sorvetes tornaram-se luxos. Dois meses depois, curado da doença, ele decide começar sua missão: buscar o deus que lhe salvou.

Para descobrir seu deus, Raphael desenvolveu um método rígido. Fez uma pesquisa sobre as religiões com mais seguidores do mundo e chegou a uma lista final de 28 doutrinas. Encontrava os templos em buscas pela internet e decidiu que cada uma seria experimentada por um mês – “uma semana em igreja rica, uma semana em igreja média, outra semana numa igreja pobre, e a quarta semana numa igreja super pobre” -, que leria seus livros, praticaria seus rituais, praticamente seria adepto de cada uma delas durante esse tempo. Além disso, alguns cultos foram descobertos por “sorte”, quando surgia a oportunidade, por intermédio de amigos. Hoje, afirma que se descobrisse um novo culto conheceria com prazer.

Achou por bem também avaliar cada um dos cultos, estudar e procurar suas contradições, descobrir suas ações na sociedade, compará-los por si mesmo e pedir opinião de uns sobre os outros. Estabeleceu sete parâmetros de julgamento, por meio dos quais chegaria a uma nota final:

1 – Forma pela qual adoram Deus
2 – Contradições lógicas
3 – Organização física e administrativa da instituição (horário, limpeza)
4 – Respeito dos atuais e receptividade com novos membros
5 – Investimento social – para onde vai o dinheiro?
6 – Material – doado ou não para novos membros
7 – Como a sociedade vê a religião

“Levo pessoas à minha casa para sentirem-se à vontade e me contarem coisas da religião que eles não contariam para um recém-iniciado, como contradições e pontos considerados fracos por outras crenças. Só tem como pegar informação aprofundada com os líderes ou com os missionários, pois 80% das pessoas não têm essas informações”

O primeiro templo visitado foi uma igreja Católica Apostólica Romana, “domingo de manhã na igreja de Sapopemba, era um dia ensolarado, eu fui pensando ‘como será que vão me recepcionar?’, ‘será que eu falo a verdade sobre a minha pesquisa?’”. O primeiro contato foi monótono e maçante, teve de permanecer sentado ouvindo o culto sem entender muito bem o que era dito, além de não saber como interagir com as pessoas naquele ambiente. Começou a se perguntar se realmente era necessário estar ali.

Na parte do culto em que os fiéis tomam hóstia, “vi todos se levantando e formando fila, fui atrás, não sabia se era pecado ou não. Eu até mastiguei, e depois descobri que não era pra mastigar, devia esperar que se desmanchasse. Na segunda visita fui perguntar ao padre ‘por que vocês fazem essa doação mínima de alimento?’ O padre riu de mim e me explicou que era o corpo de Cristo. ‘Mas você tomou hóstia?’, perguntou-me. ‘Não, seu padre, sei que não posso‘, menti”. Hoje ele pensa que não cometeu pecado, pois “não pode ser pecado comer uma hóstia sem saber que é um ato sagrado”, mas no momento, o rapaz se sentiu desrespeitando a religião.

Em uma de minhas visitas a uma igreja protestante pude ver na prática o verdadeiro sentido de uma religião. Um membro estava com grandes dificuldades financeiras, desistimulado, parou de ir à igreja e começou a beber. Até onde fiquei sabendo, ele perdera sua empresa e contraíra uma dívida de mais de 100 mil reais.

A igreja tomou conhecimento, seu líder foi visitá-lo sozinho e percebeu a dificuldade do seguidor. Reuniu um grupo de 15 fiéis – eu fui convidado para ir – e foi visitá-lo, cada um com um pouco de alimento. Quando chegamos e ele nos viu, se emocionou. Em sua geladeira só havia água, arroz e um pedaço de frango. Os membros o ajudaram, arrumaram-lhe um emprego na empresa de um dos crentes e o confortaram com palavras de apoio.

Oito meses depois fui convidado a participar de um evento interno desta mesma igreja . Num dos momentos, esse homem chamado Ricardo foi dar seu testemunho e, muito emocionado, contou sua experiência. Parara de beber, conseguira parcelar sua dívida e com o novo salário estava conseguindo pagar o empréstimo e manter com sua família.”

Porém, como nem tudo são flores, foi também junto aos evangélicos que Raphael teve uma de suas experiências mais traumáticas: “Uma prática muito comum nos cultos pentecostais é a sessão de descarrego. Presenciei algumas e descreveria com somente uma palavra: pavor. Não queria ver, ficava morrendo de medo e tinha problemas para dormir à noite. Teve uma vez que até chorei pois é forte demais, o homem que estava com o espírito gritava, dizia que iria se matar e acabar com a própria família. Acho as sessões ridíiculas, não se deve dialogar com esses espíritos, temos é que pedir à misericórdia divina para socorrê-los. Já vi espíritos se manifestando e um pastor tirá-los em nome de Jesus sem exaltar-se.

Camiseta da Lusa, uma das paixões do jovem peregrino - crédito Eduardo Nascimento

Camiseta da Lusa, uma das paixões do jovem peregrino – crédito Eduardo Nascimento

Pra minha vó eu contei quando fui a cultos católicos porque ela aceita melhor a ideia, até porque em sua terra natal a religião predominante é o catolicismo. Mesmo assim ela dizia ‘Pra que essa besteira?’. Mas se eu dissesse que ia a uma igreja evangélica, levaria na cara.”

“Hoje a religião com a qual mais me identifico é a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os Mórmons. O trabalho feito pelos missionários é algo quase inacreditável, eles deixam suas casas, países, famílias e amigos para cumprir por dois anos o chamado de Jesus Cristo: ‘Ide por todo o mundo e levai o evangelho a todos’. Seus líderes não recebem salário, ninguém na ‘capela’ recebe pra fazer nada, trabalham e fazem a obra voluntariamente, mesmo sendo uma religião extremamente rica.

São o grupo mais organizado economica e hierarquicamente de todos que visitei, tudo que acontece em um templo, todos sabem e participam. Quando chega uma visita, é imediatamente recepcionada e presenteada com o livro de mórmon. Seu material base, assim como o das Testemunhas de Jeová, é enorme, rico e fundamental, faz toda a diferença. E o melhor: é tudo de graça!

Os ensinamentos que me passaram naqueles domingos pela manhã certamente permanecerão em minha vida até o fim. Adotei como práticas o trabalho voluntário, comecei a limpar praças e podar árvores (próximo de casa), fazer visitas a pessoas doentes, distribuir alimentos a moradores de rua, passear com cachorros abandonados em canis e ser voluntário nas eleições. Antes tinha um pensamento egocêntrico

Mas eu não seria mórmon por certas contradições que não consigo aceitar. Como enfiar na minha cabeça que Cristo foi casado, o Senhor tem família e Joseph Smith, o líder da religião, viu Deus e Jesus? Outro problema é com relação às restrições. Se eu me tornasse mórmon e me casasse com uma mórmon, minha família não poderia presenciar o casamento que aconteceria no templo, teriam de esperar do lado de fora. Como poderia pedir isso para minha mãe, meu pai e minha avó, que me criaram?

Por fim, tem a questão do material religioso que usam. Mórmons têm 4 livros sagrados. Se a bíblia proíbe o uso de outras escrituras sacras, como isso é possível?”

Mesmo depois de iniciada a busca, Raphael não contou nada para seus pais, não contou para seu irmão, guardou segredo de seus avós e da maior parte de seus amigos, achando que eles não compreenderiam e/ou tentariam persuadi-lo a desistir. “A maioria dos encontros religiosos era no domingo, eu inventava um almoço ou um cinema e guardava o dinheiro que meus pais me davam para esses supostos passeios. É uma mentira menor que vale a pena”.

Para despistar a mãe, Raphael sempre a convida, já sabendo que não aceitará o convite: “Mãe, vou sair com uns colegas, cê quer vir?”. Já o pai é mais desconfiado e faz diversas perguntas para descobrir se o filho está contando a verdade:

Filho, onde você tava até agora?, interroga o pai encarando o filho nos olhos.
Tô voltando do cinema pai, saí com uns amigos, responde, já se preparando para o interrogatório.
Ah, é? Que filme vocês viram?
Aquele novo que saiu de super-heróis, pai…, tenta despistar para ganhar tempo e bolar melhor a história.
Qual?
Os Vingadores!, diz – triunfante – por ter recordado o nome de uma película que se enquadrasse na história.
Qual cena você mais gostou?, questiona o genitor sem dar tempo para o filho nem mesmo respirar e esperando o menor sinal de hesitação para pegá-lo em meio à mentira.
Aquela em os heróis acabam com o vilão, cheia de efeitos especiais, emocionante!
Sério? Me conta como foi.
Ah, pai, se eu te contar perde a graça e o senhor não vai mais querer assistir”, afirma o rapaz risonho e tranquilo, já certo de que conseguiu se livrar de mais um interrogatório no qual poderia ter comprometido o sigilo de sua saga.

Também não expunha aos líderes religiosos o objetivo de suas visitas, dizia que queria se tornar membro, acreditava que assim seria recebido com menos ressalvas, de braços mais abertos pelos sarcedotes. Sua busca quase secreta chegou a nós graças a uma colega de profissão, que escrevia uma matéria sobre islamismo e conheceu nosso peregrino no meio de sua jornada. O rapaz já acumulava histórias encontradas em sua busca, como a de Éverton:

Lembro-me de um jovem que conheci num centro espírita kardecista. Esse rapaz, chamado Éverton, me contou sua história de vida. Seus pais, nordestinos, vieram para São Paulo e conseguiram com muito esforço abrir um comércio próspero. Quando o garoto tinha apenas 5 anos, eles foram assassinados. Órfão, foi criado por uma tia que começou a negociar tudo o que era de seus pais, até que vendeu a casa em que moravam. Numa noite essa parente disse que iria ao mercado comprar comida e não voltou mais.

Com 13 anos, Éverton estava sozinho no mundo. Foi morar na rua. Começou a usar drogas, beber pinga, pedir esmola e a roubar. Disse que o roubo era a pior coisa do mundo, mas não via outra alternativa: ou roubava ou morria de fome.

Até que um dia um membro do centro espírita, ao voltar para casa, viu o menino chorando desolado. O motivo do choro era a fome, já eram oito horas da noite e ele não tinha comido nada e não queria roubar uma vez mais. Esse membro prontamente levou-o numa padaria, deu a ele de comer, conseguiu-lhe uma vaga num albergue e começou a acompanhá-lo. Depois, no centro espírita, deram passe nele [oraram], deram roupa, comida, conseguiram-lhe um emprego num restaurante e ele começou a morar nos fundos do Centro.

Hoje ele tem 20 anos. Terminou o ensino médio, conseguiu fazer escola técnica e o Centro pagou-lhe um curso de inglês. Conseguiu um emprego na área administrativa, consegue se manter, pagar aluguel e já tem planos para casamento.

Com certeza seguir determinada doutrina não levará ninguém ao céu, mas a união das pessoas com a mesma fé faz com que histórias como a de Éverton sejam mudadas e isso agrada ao nosso Criador e me serve como exemplo do papel que a religião deve desempenhar”.

Enquanto nos contava a história, num café da Avenida Paulista, um mendigo veio pedir um lanche. Inicialmente Raphael não deu bola, só respondeu que “não”, de canto de olho. No instante seguinte, repensou e disse num tom mais áspero que amigável “pode pegar!” Em seguida, diz ao garçom para trazer um misto quente para o rapaz. O pedinte agradece e Raphael mal toma tempo para ouvi-lo, retoma a conversa anterior. “A gente tá aqui falando de religião e nega comida. O que vão pensar, né?” e dá uma risada desconfortada. Sentado na calçada, a uns 10 passos de nós, o sem-teto espera sua refeição com um rosto vazio, já insensível aos barulhos e passos à sua volta.

“Deus o abençoe”, responde, ao receber o sanduíche. “A todos nós”, contesta Raphael.

Tenho certeza de que a última coisa que Deus quer é maltratar um ser. A maioria das coisas ruins que acontecem é por culpa nossa. Por exemplo: se uma moradora de rua tem um filho, provavelmente essa criança passará fome, não terá acesso à educação de qualidade. Alguém pode falar ‘mas como Deus é injusto, como permitiu que ele viesse ao mundo?’ O Criador não teve culpa, quem a teve foi a mãe, que engravidou sabendo que a vida de seu filho seria assim.

Deus sempre pensa em nos ajudar e nos abençoar com saúde, ânimo, força. Cristo e tantos outros seres elevados que estiveram aqui não pediram muito, só que fôssemos amáveis com nosso irmãos e que olhássemos para o Senhor. Infelizmente, existem pessoas que pensam constantemente em como prejudicar mais a vida do próximo. Fazem planos de matar, roubar, escolhem isso para si e têm a opção de mudar, mas não querem.

Creio que o inferno exista, porém tenho certeza de que esse lugar não é para tantas pessoas do jeito que o povo fala e não é um local de permanência eterna. Seria injusto se um ser no inferno não fosse ajudado depois de reconhecer seu erro e pedir perdão.

Segundo os cristãos, só entrarão no reino de Deus aqueles que aceitarem Jesus como seu único senhor e salvador. Para mim ele é como um super-herói, alguém com tanto poder sendo humilde e caridoso, nos ensinando as coisas mais difíceis da forma mais fácil. Agora, aquela pessoa que nasceu lá no Japão, que desde criança aprendeu os ensinamentos do budismo, cresceu uma pessoa justa, amou seu próximo, será que é justo ser condenada eternamente? Claro que não, Deus é amor! No dia do juízo são as ações e a fé em deus que vão contar, independente da religião.”

O budismo que Raphael conheceu foi o Marayana, o primeiro dos budismos, criado por um prícipe – Buda – que queria descobrir o porquê de tanto mal no mundo. De acordo com sua filosofia, criamos constantemente carmas, que são ações boas ou ruins. Não acreditam em inferno, como os cristãos, e sim que o inferno pode ser aqui na Terra, nesta vida. Quando a pessoa morrer e reencarnar, vai levar esses carmas consigo.

Para eles, a vontade de deus é que sejamos seres iluminados e que consigamos nos livrar dos carmas ruins, e Rapahel concorda: “quando alguém morre e dizem que morreu por vontade de Deus. É claro que não, a vontade do Senhor é que sejamos eternos.

Os budistas não veem situações adversas como algo negativo pois as dificuldades sempre nos tornarão mais fortes, por isso sempre agradeço às lutas e peço força para enfrentá-las. Talvez eu tenha uma missão na Terra, e o episódio da minha doença tenha sido provocado por Deus para despertar minha fé”

Ensina-se um estilo de vida que visa harmonizar corpo e espírito. Nada é proibido e pecado é fazer mal a si e ao próximo, no fim quem sofre as consequências é o proprio ser. Outras filosofias orientais tiveram influência semelhante: “No hinduísmo, que conheci num Templo de Ganesha, passei a ter outra visão dos seres vivos, e hoje só como carne no máximo uma vez por semana. Já a Seicho No-Ie me passou um sentimento muito bom de respeito ao corpo e à natureza. Eles pregam que o convívio harmônico entre o homem e o meio ambiente – por meio do uso de produtos orgânicos, da preocupação ecológica – é uma das formas de alcançar a felicidade.”

Raphael chegou até a Umbanda graças ao convite de um amigo. Sua primeira impressão ao entrar no terreiro foi de sentir um desconforto, não sabe exatamente por quê. Durante sua jornada começou a acreditar que o contato com Deus é pessoal e silencioso, a serenidade é uma demonstração de respeito, “oração não é para ser alta, pública”. Já não se sentia confortável com alguns cultos protestantes, quando fiéis subiam no altar e rezas eram cantadas, quanto menos com os tambores e danças das religiões afro-brasileiras.

O começo não foi bom, o desenrolar foi pior. Enquanto nos contava a cena, Rapahel começou a se alterar, a gesticular muito. Fechou a cara, franziu o celho, “Que Deus é esse que tem de pedir a vida de um animal pra dar algo em troca?!”, disse em voz exasperada. Para ele, Jesus se sacrificou por nós e não era necessário fazer sacrifício de outras vidas para se comunicar com deus. A Umbanda tirou zero na avaliação, foi a única a ganhar atingir um extremo – nenhuma tirou dez e nenhuma outra, zero. E se o sinal viesse durante essa visita ao terreiro?  “Mesmo que eu tivesse na Umbanda, e sentisse o sinal, eu ficaria. A t é   m e s m o  n a    u m b a n d a!”

Neste momento, dando-se conta que estávamos chegando ao fim de nosso encontro, Raphael respirou profundamente e nos disse: “Gostaria de deixar claro na matéria de vocês que sou neutro com relação às religiões, não tenho nada contra nenhuma delas”.

A liberdade de interpretação da bíblia surgiu com Lutero no século XVI, e desde então pipocaram novos cultos critãos no mundo. Fora isso, torna-se cada vez mais comum despregar religiosidade de religião, na nossa cultura misturada, jogar tarô e ir à missa de domingo são totalmente compatíveis. E Raphael já construiu sua religiosidade, seus ritos, mas não se contenta com isso, “uma pessoa sincrética não tem foco”.

Ele acredita que é possível chegar a Deus sem a religião, mas por um caminho muito mais difícil e com menos estabilidade: “Religião é acolhimento, tem de tirar a pessoa do sofrimento e ajudá-la a resolver seus problemas. Conheci pessoas que estão há oito anos e simplesmente chegam, sentam e vão embora depois do culto. Não pensam que algum outro membro pode precisar de sua ajuda. Penso bem diferente, serei um dos líderes na religião que escolher, vou entrar pra fazer a diferença.

Muitas pessoas misturam religião com Deus, o que não se deve fazer. Religião é feita pelo homem para chegar ao Senhor. Não vai salvar, é óbvio, mas vai mostrar o caminho. Por isso seguir doutrinas que abrem exceções não vale a pena, regra é regra, um versículo da bíblia faz toda a diferença entre ir para o inferno ou não. Sem obediência é impossível agradar a Deus e ele vale a pena qualquer sacrifício”. Também acredita que a religião na qual receberá o sinal será monoteísta, pois tem dificuldade em acreditar em um conjunto de divindades com poderes similares. “Não suporto politeísmo”.

Questionado sobre um ponto polêmico, a obrigação de pagar dízimo, Raphael é direto: “Dízimo é certo, mas tem de acontecer com posterior distribuição de renda, simplicidade de materiais, não como acontece com algumas religiões, como a católica. É preciso ajudar as pessoas com projetos sociais com clareza. Onde exatamente se investe o dinheiro? Todo o mundo precisa saber.”

Nesse quesito tem como modelo a comunidade Testemunhas de Jeová, a segunda religião que mais o agradou. “Aprendi a parar de criticar sem conhecer. Antes os odiava, mas ao conhecer seu trabalho achei admirável a devoção dos membros para espalhar a palavra de Deus, a sede de salvar o próximo. Eles têm uma concepção muito clara de que se todas as religiões fossem iguais, não se criava mais nenhuma. Sentem-se na obrigação de buscar novos membros porque são os únicos que conhecem o verdadeiro caminho para o paraíso. Sua devoção inabalável tampouco aceita interpretações metafóricas da bíblia, os seguidores não podem doar sangue, por exemplo, pois há três versículos do livro sagrado [Gênesis (9:3-4); Levítico (17:10); e Atos dos Apóstolos (15:19-21)] cuja interpretação pode condenar ao castigo eterno a quem recebe transfusões. Se tiverem de escolher entre receber doação ou morrer, morrem. É uma decisão registrada e firmada em cartório por todos os membros”

“O kardecismo dá vontade de você chegar ali, abrir a carteira e doar 300 reais para o Centro” é o primeiro comentário de Raphael sobre sua experiência com o espiritismo, da qual já descrevemos a história de Éverton. Kardecistas acreditam que deus é o criador e regente de tudo que existe e que Jesus é seu filho e veio nos ensinar um padrão de vida. Também creem na vida após a morte e em reencarnações, pois a vida na Terra seria um aprendizado cujo objetivo é a evolução dos espíritos.

Em seu culto há a oração inicial, palestra, músicas, ‘passe’ (oração para receber energia dos espíritos) e permanecem todos em silêncio. Ensinam que para satisfazer a vontade divina basta seguir os passos de Cristo fazendo boas ações constantemente, não tendo inimigos e sendo atencioso e solícito com as necessidades do próximo. Uma dessas boas ações era a entrega de comida para moradores de rua: “Eu acordava às 5 da manhã nos sábados de distribuição e quando íamos dar as quentinhas para os mendigos eles ainda nos xingavam, reclamavam que nos atrasamos.”

Mas, novamente, as contradições inpediram que Raphael a adotasse como religião. Ao mesmo tempo que são cristãos, contrariam princípios da Biblia, pois praticam a adivinhação, falam com os mortos, têm mais de um livro sagrado (os 5 principais escritos por Allan Kardec são “O evangelho segundo o espiritismo”; “Livro dos espíritos”; “Livro dos médiuns”, “O céu e o inferno” e “A Gênese”).

''Nunca coloco os pés no chão e não subo em minha cama antes de falar com Deus'' - crédito Eduardo Nascimento

”Nunca coloco os pés no chão e não subo em minha cama antes de falar com Deus” – crédito Eduardo Nascimento

No seu método de avaliação, “o que mais faz cair a nota é a contradição, depois é a organização”. A Igreja Batista, por exemplo, agradou muito pela seriedade dos cultos, de acordo com ele, “única com ensinamento racional” e serenidade, não se exaltam enquanto pregam. Mas a falta de organização e o custo do material, pois mesmo as bíblias são vendidas, fez com que ela ficasse em terceiro lugar na lista. “O que não gostei nada na Batista foi a desunião, enquanto há templos milionários, há templos debaixo de lonas. O Islamismo dizia que eu iria para o inferno se adorasse Jesus. No Catolicismo, o Papa senta em poltrona de ouro e os gastos não são transparentes. Judaísmo, mal falaram comigo, no banco em que sentei ninguém sentou. Os Mórmons têm quatro livros sagrados. Umbanda, sacrificam animais. Hindus? Politeístas…

Desisto!

Às vezes me fugia o foco do que realmente buscava, se a religião era para mostrar o Deus certo ou só me dar suporte. Eu ouvia uma coisa de um, outro contradizia e falava que era totalmente diferente, que se seguisse aquilo poderia ir para o inferno. Então formou-se uma salada completa na minha cabeça, realmente não sabia no que acreditar. Parei porque pensei: ‘já vi umas 20 religiões e nada de sinal, isso deve ser besteira’.

Já estava de saco cheio de ir conhecer esses lugares e também para minha idade não estava ‘combinando’. O tempo estava passando, o sentimento também. É como quando uma pessoa morre, por mais que seja querida o tempo vai nos afastando e nos deixando mais frios”. E aquele que o devolvera à vida agora o abandonou, o mandara numa busca em vez de se mostrar e depois decidiu se mostrar de inúmeras formas.

“Então resolvi dar uma pausa e firmei um pensamento frio. EU NÃO ACREDITO EM NADA QUE ME FALAM, só quero entender o porquê, sem me envolver sentimentalmente, aí começou a dar mais certo. Foi justamente comentando isso com um colega que ele me disse, ‘Rapha, você tem que conversar com um amigo meu, ele é messiânico e faz uma oração que tira todo esse peso’. Não me deslumbrei no começo, mas o johrei foi algo que me tocou.

Na época estava muito preocupado com o estado de saúde de uma vizinha de quem gostava muito. Ela tinha tido um derrame, estava na cama e mal podia falar. Lembro-me que fui visitá-la numa tarde chuvosa e disse: ‘fica calma, a senhora vai melhorar, vou buscar algo pra que isso aconteça o mais rápido possivel’. Ela não gostou da ideia no primeiro momento, mas insisti: ‘eu chamo uma vez, se a senhora não gostar, eles nunca mais aparecem aqui’.

Johrei é uma técnica de cura da Igreja Messiânica. Os membros canalizam a luz divina pelas suas mãos e purificam o espirítio de quem recebe. Pedi para os membros virem à casa dela ministrá-lo e, supreendentemente, a vizinha começou a ter uma melhora nos movimentos, começou a falar melhor. Eles vinham todos os dias, e os avanços eram claros. Ela até me disse ‘Rapha, você deveria ter trazido eles antes, já estaria curada’. Infelizmente ela veio a falecer alguns meses depois, devido a uma parada cardíaca, mas já não sentia tantas dores e dizia estar em paz.

Na igreja messiânica aprendi a me desapegar de muita coisa. Por exemplo, compartilhar comida, livros. Eu lembro que na época em que Harry Potter era super comentado eu tinha todos os livros e passei a doá-los para pessoas que gostavam, mas não podiam comprar. Venho tentando também me desapegar da minha vó, tentando me acostumar com a ideia de que ela vai morrer, pois ela já tem 81 anos, e não é fácil.

A última religião pesquisada foi a Rosa Cruz, em agosto de 2012. A expectativa era de receber um sinal, a experiência foi morna: Eles têm templos super bonitos mas os ensinamentos são passados em uma sala, na reunião dos membros. Me senti super bem lá, eles falam muito dos planetas, estrelas e todas essas coisas. Foram ensinamentos legais, eles estudam bastante, mais de trinta livros e eu li poucos”.

Mas acabou a lista e não veio sinal nenhum, Raphael escreve seu relatório final, pede a assinatura do sacerdote e sai do templo como um condenado entra na prisão.

“Eu achei que esse sinal seria em um lugar que me fizesse sentir bem e sentiria no coração que era ali. Não recebi o sinal, agora vou fazer uma nova visita nas três religiões que mais me agradaram e escolher por eliminação. Faço 2 meses em cada uma das escolhas e no final de junho opto por uma.

Pode ser até que o sonho tenha sido uma besteira, admito, mas para mim foi sério. Eu corro atrás desse deus. Se eu for pro inferno, eu vou com a mente limpa”

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