Jornalismo de Banco de Dados

São Paulo 16/10/2012 (Em parceria com Giovanna Rossin)

Jornalismo de banco de dados, também chamado de RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) é uma forma de usar dados de maneira eficiente de analisar e processar grandes volumes de informação rapidamente. Seu principal uso é na área de jornalismo investigativo e podemos dizer que seu lema é a sistematização, com estudos aprofundados de: Nomenclatura, Tema-chave, Descrição, Origem (fonte) e Data. O livro precursor do jornalismo RAC: “The New Precision Journalism”, escrito por Philip Meyer, pode ser baixado neste link. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) disponibiliza uma apresentação em PDF de Paulo Rebêlo sobre “Como transformar informação em banco de dados [construindo seu próprio banco]” neste outro link. Mais um excelente documento online para entender melhor RAC é este ppt das estudantes Cintia Ferreira e Nathália do Lago, da Universidade Católica de Santos (UniSantos), uma das fontes deste artigo.

Estes conceitos estão mais pertos do que podemos pensar. Para o jornalista Claudio Tognolli, um dos fundadores da Abraji, fazer RAC é “deixar de entrevistar necessariamente pessoas e começar a entrevistar dados”. Outra denominação interessante sobre este artifício é a “independência de conexão e otimização de tempo”, como indicou Michelle Magri. A chave é saber explorar tais ferramentas para potencializar a coleta, armazenamento e processamentos destes dados, quaisquer que sejam sua natureza, de maneira a pensá-los consciente e criticamente.

“Se você é jornalista tem que ter muita precisão no que faz, então, aprender a usar as técnicas avançadas do Google é fundamental. Isso vai servir não só para alimentar seu banco de dados, mas para você produzir suas matérias e sem erro”, diz Paulo Rebêlo, jornalista, mestre em políticas públicas e editor no Webinsider. E, na verdade, as técnicas devem ser não apenas no Google, mas em tantos outros mecanismos virtuais.

As contribuições da RAC na construção de grandes reportagens, como bem salienta a Abraji é a possibilidade de mexer com grande quantidade de informação com mais precisão e velocidade, a partir de uma filtragem eficiente de tais dados.

Nesse sentido também estão as considerações do jornalista Nilson Lage, que afirma que trabalhar com RAC é “colher e processar informação primária ou, pelos menos, intermediária entre a constatação empírica da realidade e a produção de mensagens compreensíveis para o público”.

Para jornalistas como Aron Pilhofer, diretor de interatividade do jornal norte-americano The New York Times, o essencial é como a linguagem web pode auxiliar na visualização dos dados para mostrar o que é importante. Entre as principais ferramentas usadas em jornalismo de banco de dados estão programas muito presentes no cotidiano dos jornalistas, mas que em geral não são bem estudados nem devidamente explorados. São Excel, Facebook, PDF e também programas de arquivamento de dados, como o Evernote, aplicativo gratuito que arquiva e cataloga textos, imagens e vídeos.

No entanto, mesmo que a tecnologia e abrangência tenham se ampliado muito nas últimas décadas, a utilização do banco de dados não é nova. Em 1967, Philip Meyer, quando jornalista do Detroit Free Press, usou um computador mainframe para as análises de pesquisas e estatísticas sociais em Detroit que resultaram na reportagem que, inclusive, lhe rendeu um prêmio Pulitzer.

Esclarecendo o avanço, Brant Houston, diretor executivo da IRE (Investigation Reporters and Editors, fundada em 1975), indica que técnicas elementares são o uso de planilhas eletrônicas, como o Excel, que organiza dados e promove análises diversas, e que posteriormente passamos à busca avançada pela internet, através de programas de geo-referenciamente e um sem-número de outros softwares.

Aqui no Brasil, onde as técnicas de RAC chegaram em meados dos anos 90, podemos destacar três fatos memoráveis. A primeira matéria a utilizar foi em 1995, na Folha de São Paulo, no caderno Rio-X SP, coordenada por José Roberto de Toledo e Fernando Rodrigues. Fatores econômicos e geográficos de 96 distritos paulistanos foram mapeados a parti de uma pesquisa da PUC-SP. Logo em 1997, a Folha começa a promover cursos de RAC para sua equipe. Já em 2003, a Abraji lança seu primeiro curso de RAC, sob responsabilidade de Brant Houston e Ron Nixon da IRE, abertos para jornalistas e estudantes de todo o Brasil. E, o terceiro acontecimento seria o primeiro Prêmio Esso a uma matéria feita com ajuda de RAC para a equipe de O Globo, sobre deputados estaduais no Rio de Janeiro, em 2005.

Exemplos interessantes de projetos nessa área no país são: “Políticos do Brasil“, criado por Fernando Rodrigues para reunir informações sobre situação fiscal, patrimonial e criminal, por exemplo, de políticos de todo o Brasil; “Transparência Brasil“, cujo diretor executivo é Claudio Weber Abramo e atua no combate à corrupção no país; e “Blog Esfera“, que busca promover a transparência pública, os dados governamentais abertos e a participação política por meio da rede. No exterior, a principal referência nos Estados Unidos, precursor do RAC no mundo, é Investigative Reporters & Editors.

Em 2010 e 2011 o site ProPublica ganhou prêmios Pulitzer por matérias investigativas publicadas online. No ano passado, a reportagem vencedora foi ”The Wall Street Money Machine“, de Jesse Eisinger e Jake Bernstein, que receberam o primeiro prêmio específico para reportagem publicada exclusivamente em suporte online. A reportagem premiada mostra com muitos recursos gráficos e extensa investigação como banqueiros de Wall Street, na busca de seu próprio enriquecimento à custa de seus clientes, e até mesmo da própria empresa, aprofundaram a recente crise financeira.

Abaixo, vídeo de Daniela Silva sobre internet e jornalismo de banco de dados:

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