Dois policiais, um marreteiro e muitos coniventes na CPTM

Eram aproximadamente oito e meia da noite de um sábado chuvoso e eu estava num trem da Linha 8 da CPTM em direção a Itapevi. Estava lendo um livro, alheio ao que se passava ao meu redor naquele vagão cheio de gente. De repente, escuto um barulho de pisadas fortes, entra um homem correndo, senta-se no banco em frente ao meu e diz: “Caralho, são os homi!!!” No mesmo instante, as portas do trem se fecham. Duas pessoas começam a esmurrá-las e a gritar alguma coisa num comunicador. O ar fica pesado, difícil de respirar, há tensão. Muita tensão. As portas, então, abrem-se novamente e os dois seres entram gritando: “PERDEU! PERDEU! PERDEU!”

Eram enormes, musculosos e com pelo menos um metro e noventa de altura cada um. Estavam ofegantes, pareciam ter perseguido aquele homem por toda a plataforma. Um deles fica parado ali mesmo, na porta, e fala pelo rádio: “Pode mandar fechar”. Como que por passe de mágica, cerram-se os acessos da minhoca de metal, que agora se encaminha à próxima estação. Enquanto isso, o outro integrante da dupla pega a sacola do chão (assim, sem mais nem menos, sem olhar para o dono da mesma ou dizer uma única palavra), dirige-se para outra porta e fica lá parado, mirando em todas direções freneticamente, com os olhos vermelhos, suando bastante, a careca dele até pingava. Toda a cena se passou em menos de 10 segundos, com ritmo de filme de ação! O homem sentado, dono da sacola, permaneceu parado o tempo todo com os olhos fixos no chão e sem esboçar qualquer reação.

Passado o momento de perseguição cinematográfica, no qual fiquei vidrado e sem piscar, olho ao redor buscando a reação das pessoas. NINGUÉM sequer parecia ter notado o que ocorreu. TODO O MUNDO fingia que não estava acontecendo nada. Era como se o marreteiro ali sentado, sendo abordado por dois policiais ferroviários (PFs) disfarçados (estavam à paisana), tivesse se tornado um leproso que os contaminaria por meio do menor contato visual. Ele não era a mesma pessoa de quem compravam sucos, refrigerantes e amendoins, todos os dias, para se alimentarem e aliviarem o longo trajeto da locomotiva. Com quem negociam, brincam, riem das anedotas. Naquela hora ‘ninguém tinha nada a ver’ com aquele ‘vendedor ambulante ilegal’ (que, vale lembrar, só está ali porque realizamos compras ‘ilegais’ dele cotidianamente). Fiquei muito triste. Por medo, conivência ou, pior, por concordar com a situação, os passageiros tiveram um surto de cegueira coletiva.

Decidi encarar o careca com o olhar e demonstrar que não concordava com aquela situação. Que estava enxergando o que se passava, que se ele resolvesse agredir o cidadão ali sentado eu era, sim, uma testemunha e não estava disposto a ficar só sentado assistindo. Ele não me olhou diretamente nos olhos nenhuma vez. Estávamos chegando à estação Antonio João. Resolvi me levantar. Iria acompanhar os policiais se resolvessem levar o marreteiro. Claro que estava morrendo de medo de apanhar também, mas decidi que valia a pena levar uns supapos tentando impedir uma sessão de pancadaria gratuita. Minha covardia ia pesar demais na hora de encarar o travesseiro. Ele, eu não consigo enganar. O vendedor, nessa hora, tirou os olhos do solo, piscou para mim e disse, com um tom de voz calmo e meio risonho: “Vida sofrida… mas é assim mesmo…” Daí ele olha para o careca e continua “Mas tranquilo… De BOA…”. Fiquei mais calmo e voltei ao assento. A dupla foi embora sem alarde e levou a sacola com mercadorias. Nunca havia presenciado uma situação tão similar a um roubo em minha vida.

Davidson é alagoano, tem a face bem marcada pelo sol, com muitas espinhas. Estava usando um chapéu marrom, uma blusa vermelha, uma camiseta azul da marca Fatal Surf e um grande relógio analógico, cor de prata, com três círculos de marcadores internos, parecia bem caro (e confuso). A camiseta e o relógio ele havia comprado durante aquela tarde. “Os PFs correram atrás de mim o dia inteiro! Sabia que tava marcado, era só ouvir ‘gordinho de chapéu’ saindo de algum rádio que eu começava a correr. Quando é assim é melhor gastar logo o dinheiro do que deixar esses PFs levar. Cê viu o estado daquele cara? Preferi num falar nada, o cara tava descontrolado”, disse referindo-se ao policial de olhos vermelhos.

Perguntei-lhe se morava com sua família e como fazia para aguentar aquele tipo de situação todos os dias. Explicou-me que tinha alguns parentes em São Paulo, mas não os procurava. Era solteiro e sozinho. Seu modo de viver era trabalhar no trem por dois anos, juntar dinheiro e voltar para Alagoas. Lá, em sua cidade natal, gasta suas economias em menos de 12 meses e retorna para a terra da garoa. Faz isso há 6 anos. Sobre a pressão? “O importante é que por enquanto tenho saúde para correr dos polícia, quando não der mais pego um trabalho aí para ganhar miséria. Até lá, ganho meus R$ 80 reais por dia aqui. Eles deram sorte de me pegar hoje, geralmente eu escapo desses brutamontes.”

Contou-me que já não apanhava há alguns dias, da última vez que o pegaram esmagaram-lhe o dedão do pé direito (que estava com a unha toda quebrada e ainda cicatrizando) e machucaram sua mão (que apresentava manchas roxo-escuras). Intrigado, perguntei se era sempre assim: PFs batem, pegam a mercadoria e vão embora. “Ouxi, pois é assim todo dia.” E não dá para fazer nada, você não tem a nota das coisas que compra? “Claro que tenho. Mas esses cara tá nem aí pra isso? No começo, briguei e não queria dar minha mercadoria não. Mostrava a nota, dizia que não ia entregar. Daí me levaram para fazer R.M. (Relato de Mercadoria). Aquilo ali é sala de tortura”. Como assim, você já apanhou no R.M.? “Ali é só marretada, rapaz. Num é tapinha, não. E você ainda fica marcado com os homi.”

O trem parou em Barueri “por motivos de manutenção” e tivemos de descer. Enquanto estávamos aguardando, Davidson ficou inquieto. Não conseguia se concentrar, acendeu um cigarro e por fim me disse: “Tá vendo os PFs dando risada e olhando para mim? Tentaram me pegar hoje à tarde, mas não conseguiram. Agora tão ouvindo lá no rádio que eu me lasquei. Esses abutre. E esse cara aqui do lado, de camisa vermelha com o fone do ouvido e esse comunicador no peito? Se te disser que é ‘paisana’, cê acredita? Aquela sacola na mão dele é para fingir que é passageiro”. Os policiais fardados na plataforma estavam rindo, é verdade. Mas não era possível saber se era de Davidson ou não. Quando a próxima locomotiva chegou, entramos juntos no vagão: Davidson, o suspeito ‘paisana’ e eu. Nos minutos de espera antes da partida, foram surgindo ambulantes vindo de outros vagões. O ‘paisana’ não fez nada, era, afinal, mais um passageiro. Preferi não dizer nada, só olhei para meu companheiro de viagem com cara de ‘É… foi paranoia sua…’

Teve início, então, nosso diálogo final. “Sabe o que me deixa mais puto? É não entender o porquê. Por que os passageiros ficam quietos em vez de ajudar a gente que só tá aqui para fazer a viagem do povo mais digna? Todo o mundo quer comprar Trident, amendoim, chocolate pras criança e tomar água e suco pra refrescar, não é assim? Por que não junta uma galera e manda parar com essa perseguição besta dos PFs? Por que eu, que compro minha mercadoria, pago ICMS, pago bilhete para entrar no trem e trabalhar, sou caçado que nem bandido, apanho e tenho de viver olhando por cima do ombro e correndo de qualquer um que tem cara de ‘paisana’? Eu, por acaso, estou fazendo mal para alguém? Era melhor tá roubando ou matando, era? Qual é a lógica dessa PORRA toda?”. Agora era minha vez de olhar para o chão e ficar calado. Não tinha resposta convincente para nenhuma daquelas perguntas.

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7 respostas para Dois policiais, um marreteiro e muitos coniventes na CPTM

  1. Karin Salomao disse:

    Conversar com quem está ao seu lado e ouvir. O início de um verdadeiro jornalista.

  2. Danilo Bueno disse:

    Vai saber onde vão parar essas mercadorias. No mínimo é distribuido entre os seguranças. Isso se é que são seguranças mesmo…

  3. Jose Cintra disse:

    É isso Karin, mas prá “sentar e ouvir” tem que estar antenado e ter sensibilidade; e para mim isso significa se colocar na situação do outro. O Wilheim tem essa sensibilidade e mais, a rara capacidade atual de se indignar com situações de injustiça. Se lhe for dado espaço nessa imprensa decadente que nos restou, certamente será um jornalista brilhante.
    Cintra

  4. danielstacruz disse:

    É, tío, infelizmente o desfecho foi o contrário do daquela história que eu presenciei no busão.
    Mas parabéns pela atitude, não só de se dispor a levantar e talvez apanhar junto, mas também de procurar conversar com o cara e saber mais sobre a situação dele. Se indignar, apesar de um pouco raro nesses casos, é fácil; difícil é fazer algo a respeito.

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