Exigência Social

Tinha tomado a decisão. Pela primeira vez, em toda sua vida, cortaria o cabelo. Logo ele, que sempre fora aclamado pelas mulheres, graças a seus belos cabelos sedosos, volumosos, brilhantes… Era uma realidade dura demais para um homem como ele. Por que queriam “tosá-lo” desta maneira? O que sua pobre cabeleira havia feito de errado? Por mais que buscasse, não encontrava nenhuma resposta.

Contudo, o mundo decidiu assim. Semana passada, um mês após completar dezoito anos de idade, foi procurar emprego. Sua mãe o atormentava o dia todo, a namorada queria presentes, o dono do fliperama queria acertar os fiados… foi a única saída. E por incrível que pareça, até mesmo para ele, conseguiu. Como era possível?! Um rapaz que sempre preferiu jogar bola e paquerar a tocar num livro? Assistia à televisão até tarde, passava o dia jogando e namorando. Por que iriam contratá-lo? Infelizmente, a verdade cutucava sua mente.


Seria “office-boy” em um escritório de advocacia no dia seguinte. Gostaram da sua forma de falar, seu jeito extrovertido e o currículo (que foi copiado de um perfil no “My Space”) era perfeito. Só havia um pequeno, ou melhor, grande detalhe: o cabelo. Era “desapropriado” para o serviço. Nem fazia idéia do que significava “desapropriado”, mas dava pra perceber que não era coisa boa. Já se encontrava a duas quadras do salão.

Ali seus dezoito anos seriam decepados.  O seu parceiro mais íntimo e confiável seria assassinado. Manter a mulherada e a história da sua vida ou largar para trás todo o passado e trilhar uma carreira de sucesso? O emprego dava dinheiro. Pagaria sua mãe, compraria uma moto para sair com a namorada, quer dizer, nesta altura ele já teria namoradas. Uma para cada dia da semana. O cabelo possuía seus minutos contados.

— Boa tarde, Dona Zulmira. — disse entrando no matadouro, que antes era um paraíso capilar.
— Boa tarde, garoto! Tô acabando as luzes deste rapaz e já já tomo conta dos teus cachos, é coisa rápida. — falou a cabeleireira, que estava acostumada com a presença dele todo final de semana, pedindo-lhe para “tomar conta” de seus caracóis.

Foram cinco minutos repletos de angústia e insegurança.

— Sente-se e vamos começar. Quer fazer luzes hoje também? Vai ficar uma gracinha, e como estou de bom humor, te faço por cinco reais.
— Eh… eu vou cortar meu cabelo hoje.
— O que? Que pecado! Um cabelo tão bonito! É promessa?
— Não, é emprego.

Fechou os olhos e esperava arduamente a hora da sentença. Em breve, tudo estaria acabado. Só que… para cortar tanto cabelo, ela deveria levar horas. Com certeza cobraria o dobro! Que roubo! Ouviu um zunido, parecia um mosquito misturado com abelha e cigarra. Que barulho era aquele? Já ouviu algo assim antes… será que… Antes que pudesse deduzir, viu um bolo capilar cair sobre seus joelhos. Ficou chocado. Sem palavras. Seu cabelo morto no seu colo? O que era aquilo?!

Viu a cena mais horripilante e monstruosa de toda sua existência. Uma coisa preta com listras brancas, possuidora de uma lâmina em forma de pente na ponta que tremia incontrolavelmente e um cabo enorme balançando para lá e para cá que fazia um zunido ensurdecedor! Lembrou do barulho. Era uma maquininha de cortar cabelo. Já ouvira, porém nunca tinha visto uma em ação. Sentia-se apunhalado pelas costas por uma pessoa em quem confiava incondicionalmente.

Zulmira, sua cabeleireira desde os 9 anos de idade, o traiu. Covardemente, passou a lâmina por sua cabeça sem clemência, dó e nem mesmo compaixão. Possuía um amor quase materno por aquela senhora. Adorava sentir aqueles dedos graciosos a enrolar e modelar seus cachos, o creme deslizava formosamente por sua cabeleira. Durante o corte dos fios rebeldes, podia sentir a sensibilidade dos dedos femininos amaciando-o.

Neste momento, a mesma mão, carregava aquela monstruosidade eletrônica dilacerando o seu couro cabeludo. Estava quase careca. O mundo desabou. Perdeu o cabelo, o amor quase materno pela senhora e ainda teria que acordar todos os dias às seis da manhã. O que mais estaria poderia acontecer? A terceira guerra mundial, quem sabe? Não tinha mais sentido continuar vivo.

Andava desnorteado e moribundo, em direção ao ponto de ônibus, quando encontrou um amigo.

—Fala brother! Cortou o cabelo hein?!
—É, fui traído pela vida. — Dizia quase sem voz, sentindo que toda a energia estava abandonando seu corpo.
— Traído? Ficou legal seu corte. E essa folha que você está segurando, o que é? — perguntou o colega curioso.

Folha? Ué, que papel era aquele? Um telefone? Ah, sim. Era de uma garota que lhe entregou quando saiu do salão. Garota!? É… ela o olhou durante um tempo e depois lhe passou o telefone. Estava tão distraído que nem percebeu direito. E, pensando bem, ela era muito bonita. Quem sabe mais linda que a sua namorada. Poderia com esse cabelo… quase careca?! Não. Que é isso? Impossível! Mas o papel estava na sua mão. Olhou para o espelho de mão de uma adolescente que estava aguardando a lotação ao seu lado. Até que estava bonito. Passou as mãos para trás, alisou seu cabelo (ao menos o que sobrou dele) e reparou que com um pouco de gel e um pente, ficaria maravilhoso! Ah! Que felicidade! Quis gritar de alegria! A vida tinha sabor novamente! Era outro homem!

O ônibus chegou. Durante o percurso, após uma profunda reflexão, tinha certeza de algumas coisas. Teria fobia às máquinas de cortar cabelo para o resto de sua vida, jamais voltaria ao salão de Zulmira (aquela desalmada!) e nunca mais pensaria que a vida estava acabada, porque é quando estamos fracos que percebemos o quão forte podemos ser. Ao menos foi isso ouviu em um comercial. Queria era se lembrar da morena do papel. Qual era mesmo o telefone dela?

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