O Assassinato

Alberto voltava para casa de ônibus, como o sempre o fizera. Trabalhava num escritório na Barra e morava na Tijuca. Vivia com seu pai em um casarão que pertencera ao seu avô e que, apesar do desgaste causado pelo tempo, continuava a existir emparelhado com os belos sobrados e edifícios que foram construídos ao seu redor.

Receberam muitas propostas para que vendessem aquele entulho de tijolos que já não se agüentava em pé, porém seu pai, sempre inexorável, jamais deu atenção a nenhuma delas. Dizia que aquilo era um tesouro de família, construído com o suor e a esperança de seu pai, era um símbolo de vitória que devia permanecer intacto e servir de exemplo ao filho e posteriores netos, da mesma forma que serviu para ele.

Alberto estava cansado de ouvir o velho sempre a lhe dizer o que devia ou não fazer de sua vida. Por que não morreu quando teve aquele derrame há quatro anos? Por que preferiu se agarrar a vida e permanecer como um parasita naquela cama a sugar toda a juventude de seu filho? Finalmente o ônibus chegou ao seu destino. O jovem rapaz não tinha pressa para entrar em casa, mas sabia que já estava quase na hora de aplicar a injeção de adrenalina em seu pai. Tomava-a três vezes ao dia. De manhã e à noite era o filho que as aplicava. À tarde, pedia ao vizinho para fazê-lo e lhe pagava uns trocados pelo serviço.

Quando colocou os pés dentro de casa, ouviu o arfar alto e rouco da respiração de seu pai, batalhando contra os pulmões que eram teimosos e não queriam trabalhar direito. Ele travava uma desesperada guerra contra si mesmo para continuar a viver. Alberto sentia ódio do pai por causa dessa luta incessante, desejava a morte dele para sair daquele inferno. Venderia a casa e se mudaria para algum apartamento mais próximo ao trabalho. Daria festas, dormiria tarde, teria várias namoradas, compraria um carro, beberia como jamais o fez e gozaria todos os bens que a vida pode nos dar!

– Meu filho! Ande meu filho! Minha injeção! Ajeite-a logo! – berrava o pobre homem sobre a cama, desfalecido, fraco e num estado vegetativo. O rapaz ao ouvir os berros do pai não se moveu. A gritaria o ensurdecia, lembrava da sua infância junto ao velho, quando brincavam e passeavam juntos, andavam a cavalo nos sítios de seus amigos, recordava-se do herói que já foi o ser que esperneava na cama. Continuava imóvel. Por que tinha que ser assim? Se tivesse morrido na hora certa, hoje ambos seriam felizes, cada qual no seu mundo, e a vida seria estupenda!

– Socorre, Alberto! Pelo amor de deus! – prosseguia o pai num desespero febril de apego a sua existência. O jovem aplicou-lhe o remédio e jurou que daria um fim àquela situação. Após uma longa semana de procura, descobrira finalmente a forma para cometer o assassinato. Uma injeção de ar. O ar que o fazia resistir seria o seu próprio ceifeiro. Bastava uma picada para ele entrar pelas veias e ir ao cérebro fazendo-o parar imediatamente. Nem sentiria dor, garantiu-lhe o amigo que lhe ensinou a técnica. Era praticamente impossível descobrir a causa da morte, diriam que foi outro derrame.

Tudo estava planejado e seria feito esta noite. Chegou mais cedo. Fingiu indisposição no serviço e pediu que o liberassem. Preparou a arma letal e sentou-se ao lado do pai. Estava a dormir. Alberto o observava atentamente, pensava em toda a sua vida. Sentia amor pelo homem, apesar de tudo. No entanto, não havia outro jeito. Impossível continuar como estava. Tinha que fazer. O velho, de súbito acordou, tomando um imenso susto ao dar de cara com o filho assistindo-o.

– Que fazes em casa a essa hora, meu filho?! – questionou o velho ao perceber que ainda não era a hora do rapaz estar ali. Houve somente silêncio. O rapaz agora olhava para o chão.

– Alberto, estive pensando… começou o pobre moribundo com extrema dificuldade para falar e respirar ao mesmo tempo. Já está na hora d’eu me retirar da sua vida, meu menino.

O jovem, entretanto, não entendia direito as palavras, sempre encarando o chão e agora suava desvairadamente. – Sei que o aborreço com as minhas necessidades e que se priva de muitas coisas para cuidar de mim. Você precisa d’um lugar só seu e sei que não gosta deste casarão… A mente do jovem se embaralhou de vez! O que era aquilo agora? Ele o entendia? Alberto sempre se sentiu um monstro por pensar assim. Imaginava que só devia sentir gratidão pelo pai e dar a sua vida para ele como se fosse uma grande honra.

– Pode procurar uma casa de repouso que me mudo. A casa, pode vendê-la e compre moradia nova com o dinheiro. Com minha aposentadoria, posso me virar e… agora o rapaz começou a tossir sem cessar já com os olhos cheios de lágrimas. Alberto sentia nojo de si mesmo. Como pôde? Pensar em matar o pobre pai que até em face da morte pensava mais no filho do que na própria vida!

Desatou a chorar como uma criança, o seu corpo todo tremia. Via o pai novamente como o herói que nunca deixou de ser. Tremia cada vez mais. Não comera sequer um grão de arroz o dia inteiro, ansioso pelo desfecho de seu plano. Por fim, desmaiou. O velho, que não entendia o que estava acontecendo, assustado com o comportamento do filho e o repentino desmaio, querendo ajudá-lo, pegou a seringa de adrenalina e deu-lhe na veia.

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3 respostas para O Assassinato

  1. Amanda Santos disse:

    “– Socorre, Alberto! Pelo amor de deus!” Desculpe, mas estou me coçando e preciso dizer, por mais que eu sei que isso vai ter volta e você vai pegar mais ainda no meu pé! Esse “deus!” é com letra maiúscula, professor!
    Inté, Professor!

  2. Amanda Santos disse:

    Fica triste nada! Você quer mesmo que eu elogie e fale que fiquei maravilhada com mais uma de suas crônicas, mas eu não vou falar!
    Beijos Wil.

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