É uma experiência única se sentir uma não-pessoa, afirma correspondente

São Paulo 23/10/2010 (Oboré) – “Quando iam cumprimentar os soldados americanos, os líderes afegãos simplesmente me ignoravam, era como se eu não existisse”, conta Patricia Campos Mello, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Washington. A repórter passou 28 dias no Afeganistão junto com um batalhão de 40 soldados norte-americanos na situação de embedded, jornalista que trabalha sob a tutela de um dos exércitos em determinado conflito armado.

Patrícia Campos Mello, repórter especial de O Estado de S. Paulo/ Foto: Lina Ibáñez

Patrícia Campos Mello, repórter especial de O Estado de S. Paulo/ Foto: Lina Ibáñez

Para Patricia, que já viajou a países como Índia, Japão e Rússia fazendo reportagens sobre economia, política e cultura, a principal dificuldade de cobrir uma guerra é manter a imparcialidade. A repórter diz que, como já afirmou o jornalista norte-americano Gay Talese, é impossível não ter empatia por soldados com os quais se convive. Tal aproximação interfere na cobertura do evento e pode desvirtuar, em maior ou menor grau, a produção de conteúdo.

Foi tentando minimizar as consequências, nos seus textos, do convívio com militares norte-americanos que Patricia decidiu passar parte de sua estadia em um abrigo de mulheres abusadas: “Tem horas em que não parece que você está numa guerra, perde-se um pouco a noção e é preciso tentar ver a realidade do outro lado”. A jornalista também expressa as dificuldades enfrentadas pelo próprio exército afegão ao descrever a única base nacional a que teve acesse: “Era uma casa sem luz, cheia de buraco de morteiro, que tinha uns 15 soldados com kalashnikov grudadas com fita crepe, fumando haxixe e que não tinha banheiro.”

De acordo com Patricia, uma das maiores experiências que teve ao cobrir o conflito foi poder enxergar as contradições da empreitada norte-americana sob a ótica de seus soldados. “A gente está aqui fazendo uma missão que não é nossa, que é idiota”, “Estamos fazendo uma missão de construir escola, fazer amizade… a gente num sabe fazer isso, não fomos treinados para fazer isso”, foram esses alguns dos relatos concedidos à jornalista, mesmo com o veto oficial do Comando do Exército que impedia soldados e repórteres de discutir as causas e legitimidade da guerra. Baseada em sua experiência, a jornalista sentencia: “Os Estados Unidos não têm o menor controle do que acontece no Afeganistão e nunca vão vencer essa guerra.”

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