Como morrer depois de… morto?

— Como assim? Morreu de novo? – foi o que perguntou a família de dona Divacir quando recebeu uma ligação do Hospital Geral do Estado, o maior hospital público de Alagoas, e foi informada que a velhinha havia sofrido sua segunda morte em um intervalo de 26 horas.

Sempre pensei que brasileiro tivesse saída para tudo, menos para o danado do ceifeiro. Divacir Cordeiro dos Santos, uma senhora de 60 anos, quase provou que eu estava errado. Quase.

Internada com sinais de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) às 5 da tarde de uma terça-feira, a aposentada não resistiu e morreu na madrugada seguinte. José Vieira da Silva, cunhado da falecida, foi um dos primeiros a ouvir a notícia. Mal tinha começado a chorar a perda da parente, recebeu outra ligação do hospital dizendo que dona Divacir estava viva. Só podia ser brincadeira! Mas não era.

Funcionários do necrotério para o qual a velhinha foi enviada perceberam que o corpo estava se mexendo e descobriram que a paciente ainda apresentava sinais vitais. Divacir foi imediatamente internada em estado gravíssimo. As horas que passou engavetada e sem tratamento agravaram seu quadro.

Carlos Alberto Gomes, responsável pelo caso, afirmou que dona Divacir “morreu clinicamente” em suas mãos. Ou seja, não demonstrou pressão arterial, batimentos cardíacos e nem respiração. “A equipe de plantão tentou manobras de ressuscitação, mas não obteve êxito”, divulgou uma nota do hospital. Os médicos começaram, então, a divagar sobre a causa do milagre. Foi dito que os remédios para reanimá-la podiam ter demorado para surtir efeito. Ou, talvez, a morte de Divacir fosse um raro distúrbio no qual pessoas passam dessa para a melhor “de mentirinha” e depois de minutos, horas ou dias renascem como uma fênix num ritual espetacular que ainda é incompreensível para a medicina. Para a família, só podia ser benção divina.

Erro médico ou intervenção de Deus, fato é que, depois de 24 horas, dona Divacir abandonou o mundo dos vivos pela segunda vez. Quando recebeu (novamente) a derradeira ligação, sua irmã, desconfiada da informação, foi ela mesma, ainda de madrugada, conferir se de fato a história tinha chegado ao fim. Já podiam começar a preparar o funeral e a avisar os demais parentes…

Divacir mostrou toda a sua brasilidade ao driblar a morte e voltar à partida para um possível segundo tempo. Mas nem mesmo o melhor jogador desse (ou do outro) mundo consegue passar pela marcação cerrada do sistema público de saúde do nosso país. Quando entra em jogo, ele é capaz de matar as pessoas mais de uma vez.

——

Crônica baseada em nota “Morre mulher que havia sido encontrada viva em necrotério” do caderno Cotidiano, da Folha de S. Paulo, em 18/6/2010.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s