O desafio de lidar com traumas em coberturas de violência

“Eu estava na padaria quando fui capturado. Tudo aconteceu ao longo de 42 horas, 3 cativeiros e duas horas e meia de negociação”, recordou o jornalista investigativo Guilherme Portanova. Sua fala fez parte da palestra intitulada Como lidar com experiências traumáticas em coberturas de violência, da qual também participaram Marcelo Moreira, vice-presidente da Abraji, e Bruce Shapiro, diretor-executivo do Dart Center for Journalism and Trauma nos Estados Unidos.

Portanova foi sequestrado em 12 de agosto de 2006 em ação atribuída à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e mantido em cativeiro até que a Rede Globo de televisão aceitasse exibir uma gravação dos criminosos com demandas e denúncias de abusos no sistema penitenciário. O repórter afirma que o mais importante ao negociar sua libertação foi conhecer os próprios limites: “Quando se está diante da morte você descobre as coisas com as quais não pode lidar. Aceitaria morrer, mas não suportaria sofrer violência sexual ou ter uma morte lenta”. Com tal concepção em mente, Portanova procurou manter-se calmo e negociou com seus sequestradores a própria libertação. Pediu, no entanto, para “morrer com um capuz e uma bala na cabeça” caso as negociações falhassem.

Palestrantes Bruce Shapiro e Guilherme Portanova/ Foto: Germano Assad

Palestrantes Bruce Shapiro e Guilherme Portanova/ Foto: Germano Assad

Ao ouvir os relatos de Portanova, o norte-americano Shapiro disse: “Entendo pelo que você passou, Guilherme. Enquanto cobria ao vivo protestos sobre a pena de morte, eu fui esfaqueado por um homem descontrolado”. Shapiro começou a estudar a Síndrome do Estresse Pós Traumático (PTSD, em inglês) por causa de incidentes dessa natureza. Junto com psicólogos e psiquiatras, decidiu ajudar profissionais que sofreram violência a superar o ocorrido e retomar suas atividades habituais: “É comum que as vítimas queiram se isolar, fiquem nervosas e mudem abruptamente. A violência transforma as pessoas. Precisamos de auxílio para superar isso”, disse.

“Mas por que mesmo os jornalistas que não sofreram diretamente devem discutir traumas? É simples. Porque queremos entender as vítimas que estamos reportando”, afirma Shapiro. Ele acredita que a melhor maneira de produzir conteúdos jornalísticos eficientes e superar traumas pessoais é entender como as vítimas se sentem, ser resilientes, ou seja, superar as adversidades e vencer os desafios de coberturas de risco. “Não podemos pensar que jornalismo ‘é assim mesmo’ e estamos perdidos. Temos de admitir nossos limites e lutar para sermos pessoas e profissionais melhores, convencendo as empresas de comunicação a entrar no debate”.

Nesse momento, o mediador Marcelo Moreira retomou a discussão da experiência de Portanova. “É importante compreender que existiu uma situação inédita para a Rede Globo. Havia a necessidade de proteger o jornalista sem causar danos à sociedade e foram consultados especialistas no mundo inteiro antes de se tomar uma decisão”, afirma.

Perguntas da plateia

Uma das questões trazidas pelos presentes foi sobre como o jornalista deve agir ao entrevistar vítimas de tragédias. Shapiro respondeu: “Como você desejaria que sua irmã fosse entrevistada? É assim que deve agir”.

Outra pergunta envolvia limites, até onde o estresse é responsável por atrapalhar a produção de um repórter. Também foi Shapiro que respondeu: “Especialistas diferenciam o estresse comum do estresse extraordinário. Esse último é o que nos preocupa e pode impedir grandes jornalistas de continuarem trabalhar”.

Matéria publicada em São Paulo 30/7/2010, na cobertura oficial do Congresso Abraji

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