Entrevista, sobre o papel das fontes, com o jornalista Carlos Chaparro

Manuel Carlos Chaparro é doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo. É também jornalista, desde 1957.

Iniciou sua carreira de jornalista em Lisboa. No Brasil (para onde emigrou em 1961), foi repórter, editor e/ou articulista em vários jornais e revistas de grande circulação. Com reportagens individuais, por quatro vezes teve trabalhos premiados no Prêmio Esso.

1) Existe jornalismo sem fontes? Por quê?

Não, nunca. Jornalismo é uma linguagem narrativa criada pelas ações e falas dos outros. Outros esses que cometem ou sofrem ações. O jornalismo apenas reporta fatos, faz propaganda. Não é responsável pela real produção dos acontecimentos.

2) Qual é o limite estabelecido para se quebrar o sigilo de uma fonte em favor do interesse público?

O limite está na consciência do jornalista. Em muitos países, quando um jornalista omite o nome de uma fonte que cometeu crimes, ele é condenado à prisão. Já presenciei mais de um caso em que isso aconteceu em Portugal. No Brasil, no entanto, o sigilo da fonte tem proteção constitucional. O direito à informação e à privacidade tem pesos semelhantes para a legislação brasileira. É por isso que, principalmente aqui, a escolha da quebra de sigilo é inteiramente pessoal. O jornalista tem de avaliar com cautela a relevância pública do fato que deseja expor e pesar a consequência de sua publicação. É uma atitude subjetiva, não há uma regra geral.

3) É legítima uma matéria composta apenas com fontes in off?

Depende do galho social. Ela (a entrevista feita só com fontes in off) é uma ameaça ao jornalismo. Pois o jornalismo tem de possuir a virtude da veracidade. Ao ocultar a própria identidade, a fonte abre brechas para que se duvide de seus relatos. Uma matéria construída apenas com esse tipo de material precisa considerar dois pontos cruciais. Em primeiro lugar, é preciso que o jornalista esteja seguro da veracidade da informação que vai publicar. Pois, no dia seguinte, vão vasculhar cada informação apontada em sua reportagem. E, se houver qualquer erro, toda o trabalho estará comprometido e descreditado. Em segundo lugar, deve-se considerar o jogo da clareza e consciência.

No caso Watergate, por exemplo, em que os repórteres do Washington Post publicaram matérias com fontes in off e foram instruídos por uma fonte que nem aceitava ser mencionada como anônima, os dois pontos anteriores foram muito bem considerados. Tanto que, apesar das acusações serem publicadas com dados que as corroborassem, o Ombudsman do jornal criticou e se preocupou com o off das matérias e alertou para o seu perigo iminente. Ele insistiu para que o jornal só publicasse notícias sobre o caso quando tudo tivesse sido checado. No fim, como sabemos, o aviso deu certo.

4) Como é possível quebrar o costume de se utilizar, na maioria das vezes, de fontes oficiais sem perder credibilidade?

Existe o direito de dizer, tão fundamental e universal quanto o direito de saber. E o jornalismo, de alguma forma, é uma profissão e uma atividade que viabiliza a realização desses direitos – e talvez esteja aí o ponto central da dignidade que reveste tanto a atividade quanto a profissão. Porque não há democracia onde não seja possível dizer e saber. Posto isso, percebemos que uma fonte não deve ser julgada por ser oficial ou não. Todos têm o direito de dizer e de serem respeitados em seus depoimentos. Cabe ao jornalista julgar a veracidade dos discursos que lhe são apresentados.

5) Pessoas que não passaram por um curso superior de jornalismo estão aptas para lidar com os dilemas da profissão, como a ética com relação às fontes?

Antes de responder, preciso deixar claro que não se pode confundir deontologia com ética. Deontologia é feita por normas existentes a determinadas profissões. Ética, diferentemente, é um conjunto de valores sociais que são vistos como “bons” pela população. Ética é uma só. Para mostrar como a falta de curso superior de jornalismo não influencia na ética das pessoas, temos vários exemplos. Na própria ECA, o Bernardo Kucinski se formou em física. Os melhores jornalistas da década de 60 não eram formados. Eu mesmo só fui prestar vestibular na USP aos 45 anos, depois de já ter recebido 4 Essos. Você tem de ter talento para ser jornalista. A universidade apenas potencializa o talento. Enquanto você não tem o curso superior, exerce a profissão sabendo que deve buscar o que é mais importante. É obrigado a colocar o título no topo do texto, fazer lide e usar pirâmide invertida. Depois de vivenciar o ambiente acadêmico, você aprende por que respeitar todas essas normas.

Portanto, para ser um jornalista completo, você precisa ser talentoso na prática e possuir o saber da teoria. A queda do diploma fez parte da evolução de mercado. Agora o jornalista tem de se especializar em um ramo específico para manter seu emprego e outros profissionais têm de estudar jornalismo para conseguir espaço nos grandes meios de comunicação. Seria muito relativo dizer que o curso de jornalismo é suficiente, ou não, para formar profissionais responsáveis e competentes. Tanto que a obrigatoriedade de diploma era uma característica brasileira, não existe na maior parte do mundo. Se diploma fosse sinônimo de qualidade, o Brasil teria um dos melhores jornalismos do mundo.

6) Quem se aproveita mais de quem: o jornalista da fonte ou o oposto?

Se os dois forem corretos, quem mais se beneficia é a sociedade. A fonte representa o que faz ou diz. O jornalista não interfere na produção do acontecimento, apenas gera a notícia e socializa a ação das fontes. Sem a fonte, não há conteúdo. Sem o jornalista, não há veiculação. Jornalista e fonte têm de ser bons. E quando digo fonte boa, menciono o indivíduo que produz um fato ou uma fala capaz de contribuir para o diálogo social. Hoje, a responsabilidade das matérias é dos jornalista e, também, das fontes. Por quê? Pois, hoje, há um “agendamento” de notícias. As fontes aprenderam a formar conglomerados que interagem pelo jornalismo.

Como isso aconteceu? Com a contratação de jornalistas para serem pauteiros e assessores de imprensa. O jornalismo é eficaz para aflorar conflitos e transformar a realidade. É uma coincidência que as redes de comunicação falem, praticamente, sobre os mesmos assuntos, ou as fontes já divulgam fatos que são, por si só, notícias irrecusáveis? A fonte tem de assumir a norma e a ética do jornalismo, que é a norma da sociedade. Hoje, o jornalismo passa por aquilo que chamo de quarta revolução. A revolução das fontes. O avanço das tecnologias de difusão permitiu que as fontes criassem a notícia. Não há mais o tempo de espera entre a captação e construções que eram feitas pelos jornalistas. O fato e a divulgação são simultâneos. Isso é bom para a democracia, pois favorece o direito de dizer dos cidadãos. O grande problema que surge é para o jornalismo. Os meios de comunicação, que foram criadores de mensagens e significados, tornaram-se meros mensageiros das fontes. Lidar com esta situação é o maior desafio do jornalismo atual.

Texto escrito 24/6/2009.

Anúncios
Esse post foi publicado em Reportagens e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s