Entrevista, sobre o papel das fontes, com o jornalista Gilberto Dimenstein

Gilberto Dimenstein, 53 anos, Formado na Faculdade Cásper Líbero, é colunista da Folha de S.Paulo e da rádio CBN. Já foi diretor da Folha de S. Paulo na sua sucursal de Brasília e correspondente internacional em Nova Iorque daquele periódico. Trabalhou também no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Última Hora, revista Visão e Veja. Ganhou o Prêmio Nacional de direitos Humanos, além do Prêmio Criança e Paz do Unicef. Também foi agraciado com a Menção Honrosa da Faculdade de Colúmbia, em Nova York. Com “O cidadão de papel”, obteve uma premiação inédita para um livro educativo, considerado, em 1994, pelo júri do Prêmio Jabuti, a melhor obra de não-ficção.

1) Existe jornalismo sem fontes? Por quê?

Não, isso é impossível. Porque senão é romance. O relato da realidade é feito por pessoas. A construção de uma reportagem só é possível porque ouvimos afirmações parecidas de pessoas diferentes. Fontes e dados são as bases das matérias. Ou seja, sem fontes não há jornalismo.

2) Qual é o limite estabelecido para se quebrar o sigilo de uma fonte em favor do interesse público?

Só é possível fazer isso quando se coloca a vida de terceiros e a segurança pública em risco. Por exemplo, se um sequestrador me disser que vai sequestrar alguém, eu não posso ficar com essa informação e mantê-la em segredo. Estaria colaborando com um crime. Nem mesmo psiquiatras podem esconder esse tipo de informação. É ilegal.

(Wilheim – E se um suspeito não condenado lhe confidenciasse o crime que cometeu, para ajudar você a desmascarar uma gangue de sequestradores; mas em troca exigisse que não fosse citado na denúncia?). Aí é diferente. A polícia foi incapaz de incriminar o suspeito e a informação dele me ajudará a impedir que mais pessoas inocentes sejam prejudicadas. Eu precisaria analisar muito bem a situação para tomar uma decisão. Iria averiguar a veracidade e o valor público da informação. Não há uma regra universal para todas as situações. Cada problema demanda uma resolução própria.

3) É legítima uma matéria composta apenas com fontes in off?

Sem dúvida. E muitas vezes elas são necessárias. Você tem de apurar tudo, é óbvio. Muitos jornalistas encaram o papel das fontes da maneira errada. Elas servem apenas como dicas para que o jornalista procure imagens, depoimentos, documentos oficiais e demais dados capazes de provar se o que foi relatado realmente acontece ou não. As maiores reportagens que fiz em minha carreira foram feitas com dicas in off. E não teriam acontecido se não fosse assim.

É como eu disse. Cabe ao jornalista apurar a veracidade dos relatos e encontrar material que comprove o que escreveu, porque em uma matéria apenas com offs, estão em jogo a credibilidade do repórter e do meio de comunicação em que ele trabalha. É por isso que minhas reportagens chegavam a demorar um ano ou mais. Era preciso ter certeza do que estava dizendo.

4) Como é possível quebrar o costume de se utilizar, na maioria das vezes, de fontes oficiais sem perder credibilidade?

Nunca deixei de usar uma fonte por ser oficial ou não. Julga-se uma informação pela sua relevância. Que interessa se quem fez uma denúncia foi um porteiro ou um parlamentar, se ela for verdadeira? Fontes oficiais, geralmente, estão mais munidas de dados e, por isso, são mais recorrentes. Mas indiferente de quem denuncie, a apuração tem de precisa.

5) Pessoas que não passaram por um curso superior de jornalismo estão aptas para lidar com os dilemas da profissão, como a ética com relação às fontes?

Essencialmente não muda nada. Você leu minha coluna neste fim de semana? Acredito, sim, que não se desenvolve a capacidade de síntese sem um longo treino de associação de dados, ideias e conceitos, o que exige uma vivência de ensino superior, com cargas de leitura e dissertações aprofundadas. Desenvolve-se, aí, a competência para identificar, relacionar e selecionar, a partir de problemas complexos. Seja no curso de jornalismo ou não. Ao contrário do que se pensa, o fim do diploma deve ajudar os cursos de jornalismo. Basta ler um texto universitário para ver a inviabilidade da linguagem acadêmica na mídia. Os profissionais que desejarem prosperar numa Redação terão de reciclar sua linguagem e lidar com as técnicas de comunicação; o acadêmico tem a reverência do processo; o comunicador, a do instante.

Sobre ética, a ética é um conjunto de técnicas adquiridas no exercer da profissão e nas experiências de vida. Você ainda é um estudante calouro, mas já sabe, sem dúvida, que se mentir nesta entrevista vai perder credibilidade e nunca mais terá meu auxílio, certo? Por quê? Porque é uma atitude antiética. Não precisou que a universidade te ensinasse isso.

Além disso, o meio de comunicação em que trabalha define a maior parte de sua ética. Não adianta querer escrever qualquer coisa. Se fizer isso, foge dos padrões de ética estabelecidos pela empresa e será demitido. O direito de informação existe porque existe o direito de ser informado. A população merece a verdade e é essa função do jornalista. Ouvir várias fontes, de opiniões distintas, analisar os dados que possui e contar a verdade. Essa capacidade é obtida por meio do treino e da vivência profissional. Ética é técnica de apuração precisa e respeitosa para com as fontes e os leitores

6) Quem se aproveita mais de quem: o jornalista da fonte ou o oposto?

Depende da fonte e do jornalista. Quando a fonte não aparece (está in off), a responsabilidade é toda do jornalista e do meio de comunicação em que ele trabalha. Faz parte da ética da fonte mentir para controlar o jornalista. Elas têm todo o direito de mentir. Pois, como já disse, a verdade não está na fonte, está nos documentos. E não documentos comumente utilizados, como a gravação do que a fonte falou. Gravação é a prova de que alguém disse algo. Só isso. Não dá para dizer, só pela gravação, se o que foi dito é verdade ou não. É preciso apurar. O problema nunca é a fonte, é como você (jornalista) trabalha com a fonte.

Houve a denúncia de que o (José) Sarney empregava seu neto. Tal informação veio, provavelmente, de alguém que queria prejudicar o presidente do senado. A informação é de interesse público? Não há duvida. A fonte vai se beneficiar da divulgação? Provavelmente. É um furo interessante para certos meios de comunicação? Sim. Mas o importante é encontrar dados que comprovem tal afirmação, para poder publicar a verdade e informar a população sobre a forma como o dinheiro público é mal gasto. É nisso, principalmente, que o jornalista deve se concentrar. Pode parecer um discurso diferente do que usualmente é pregado nas universidades públicas. Porém, modéstia a parte, tenho trinta anos de carreira como jornalista e já recebi a maioria dos prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. Sei muito bem do que estou falando.

Texto escrito 23/6/2009.

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