Quem falou que isso é errado?

Quais foram os filósofos que criaram conceitos éticos e ajudaram a transformar em crime o racismo e a homofobia, práticas aceitáveis em séculos passados

David Hume, Friedrich Nietzsche e Immanuel Kant foram três caras que, dotados de muito tempo para gastar e uma enorme vontade de dizer o que é certo ou errado, criaram teorias sobre a ética humana. Cada um deles, no entanto, teve uma visão diferente (nenhum deles ia aceitar que o outro tinha razão) e bolou teorias acerca de seu ponto de vista.

Quem primeiro começou com essa história de ética, entre os três escritores citados, foi David Hume. Escocês, bonachão, provavelmente ateu e nascido no início do século XVIII (por isso um indivíduo que vivenciou a Contra-Reforma), ele tinha tudo para passar despercebido pela história. Mas fez exatamente o contrário. Entre as polêmicas que causou, falou da moral. Para ele, um consequencialista, devemos construir nossa ética baseada em sentimentos e nos objetivos finais. Se tivermos de mentir para evitar que um amigo seja encontrado e queimado vivo pela Santa Inquisição, por exemplo, esta seria uma atitude ética; já que não seria nada legal entregar um colega (sentimento) e muito menos colaborar com seu assassinato (consequência).

Já Immanuel Kant, filósofo alemão, religioso, professor universitário e um dos seres humanos mais monotonamente pontuais que existiram, acharia a atitude tomada antes um absurdo. Ele desenvolveu a teoria do Imperativo Categórico. Aja sempre como se a sua ação fosse uma lei universal e considere o homem como um fim em si mesmo, nunca como um meio, dizia Kant. Se estivesse com um amigo escondido em sua casa, quando batessem na porta, seu amigo ouviria os barulhos e fugiria imediatamente. Dizendo a verdade (ou seja, dedurando a presença do parceiro), ele “ajudaria” na fuga do mesmo, pois os perseguidores buscariam pelo aposento enquanto o fugitivo sairia correndo.

O mais contemporâneo dos três, Friedrich Wilhelm Nietzsche, filósofo alemão morto em 1900, discordava, como é de se esperar, dos dois anteriores. Achava que Hume estava errado e que Kant era um religioso ignorante. Nietzsche não acreditava em uma ética universal e nem em uma verdade inabalável. O “deveria ser” é uma grande besteira. A única e verdadeira realidade é a vida humana momentânea. Devemos aceitar a vida como ela é e pronto, pensava o escritor que morreu louco e isolado. Qual seria, então, a atitude mais desprezível e imoral para ele? O ressentimento, é claro. Se devemos aceitar a vida como é, ficar nervoso com algo que aconteceu e permanecer sem aceitar o seu resultado é a façanha mais vil da humanidade.

Depois de dar uma olhada no que bolaram esses pensadores, vejamos os resultados das teorias que eles criaram em nossas vidas. Racismo e homofobia, crimes em boa parte do ocidente, seguem a lógica kantiana do Imperativo Categórico. Se não podemos discriminar brancos e nem heterossexuais, não podemos discriminar negros e gays. Para exemplificar um raciocínio oriundo de Hume, temos a defesa da implantação de cotas para negros em universidades públicas como uma atitude ética. Já que houve escravidão no Brasil e os negros tiveram desvantagens históricas, é moral conceder-lhes benefícios que possam minimizar essa diferença, mesmo que tal ação também configure uma espécie de discriminação. Para fechar com chave de ouro (ou não), vejamos a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que julgou inconstitucional a exigência de diploma para exercer jornalismo, segundo a lógica de Nietzsche. É pouco provável que ele dissesse algo aos jornalistas descontentes, pois ele não curtia opinar sobre problemas coletivos; mas se ele o fizesse, possivelmente diria: “Deixem de reclamar. O que está feito está feito. Mostrem para si mesmos que o tempo gasto na graduação foi válido e usem o que aprenderam para serem profissionais de destaque”. Ou seja, Nietzsche repetiria o velho ditado: “O que não mata, engorda”.

Texto escrito 19/6/2009.

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