A Lenda Do Dragão Yamata (Yamata-no-Orochi)

Há milhares de anos, em alguma região deste nosso imenso planeta, houve uma pequena aldeia. Seu povo mantinha-se tranqüilo e vivia serenamente, respeitando ao mundo e aos teus Deuses.

Mas, havia um problema que assolava a vida de seus moradores.

Era o Dragão Yamata. Este monstro malévolo que ostentava uma forma de dez metros de altura, três metros de largura e possuía uma face amedrontadora. Olhos vermelhos como o fogo, que flamejavam para demonstrar tua alma sanguinária e obsessiva. Dentes que tinham formas incorretas, cortantes, aniquiladoras e horrendas. Além de possuir garras devastadoras!

Yamata vinha sempre atrás dos aldeões e, consigo, trazia as tempestades que destruíam tudo que havia ali. As tempestades levavam vidas, acabavam com as colheitas, derrubavam as casas… tudo “morria”.

Assim como acalmavam aos deuses, o povo tranqüilizava Yamata através de sacrifícios. Era cruel, mas a única forma de sobrevivência. Só que mesmo com os sacrifícios, sua fúria era incontrolável! Ele sempre voltava com suas tempestades e trovões, para acabar com tudo outra vez.

Porém, um viajante desconhecido, passou por esta aldeia e disse-lhes que ouvira falar de um sábio, talvez fosse até mesmo um mago. Ele poderia, quem sabe, ajudá-los a acabar com este dragão. O mago vivia do outro lado da montanha. A Montanha Inalcançável! Vivia no cume mais alto de sua extremidade. Para chegar até lá, precisariam atravessar lugares e ver seres que nem podiam imaginar. Nenhum homem jamais voltou vivo desta tentativa.

Todos disseram que era impossível e que somente os Deuses tinham o poder de atravessar para a outra parte da montanha. Um mortal jamais conseguiria.

Um desses aldeões era casado e tinha uma filha pequena. Sua filha, somente com três anos de idade, já era vítima dos ataques de Yamata. Ele trouxera-lhe uma doença. Seu corpo tinha manchas vermelhas por toda parte, sua vitalidade e forças estavam desaparecendo, ela não conseguia andar, sentia-se mal o dia todo. Ele sabia que em questão de pouco tempo sua pequenina deixaria de viver… Contudo, os deuses pareciam não querer escutar suas súplicas. Por mais que implorasse, o estado de tua filha somente piorava. Agora ela já respirava com dificuldade…

Era cruel demais ver um ser que nem bem descobriu a vida passar por tudo isso. Porque arrancar cruelmente a vida de um ser tão inocente? Por que os deuses já queriam levá-la? Ela não podia mais brincar com seus amigos. Não lhe fazia perguntas tolas a toda hora. Não o fazia buscá-la em algum lugar após se perder por causa de suas travessuras… Aquele pequeno ser delicado e puro… Ia morrer.

“Não! Não posso aceitar a morte de tudo que mais amo neste mundo!”. —indignava-se.

Se os deuses quisessem sua vida, que a levassem. Mas que deixassem sua filha viver.

Jamais obteve resposta por tal proposta.

Precisava de alguém que o ajudasse, que soubesse como acabar com aquele maldito Yamata! Somente sua morte curaria tua primogênita. Iria atrás do mago. Preferia morrer, a ver sua família ser exterminada gradativamente.

Seus companheiros disseram-lhe que estava louco. Era impossível atravessar aquele território amaldiçoado! Perderia sua vida executando uma tolice dessas. Tinha que aceitar o que os Deuses haviam decidido. Era inevitável.

Não lhes deu ouvidos. Só tinha em mente um pensamento: Salvar sua família da tristeza e maldição inevitáveis. Se não o fizesse, não haveria mais razão para viver. Ele conseguiria! Acharia este sábio e acabaria com o Dragão Yamata!

Levou consigo somente um cajado, um vasilhame para carregar pouca água e a despedida de tua pequenina deitada naquela cama sem forças, dizendo-te:- Papai, eu te amo…

Passou por uma floresta onde só pairava a penumbra envolta em trevas. Nesta floresta encontrou: Trolls! Seres imensos com marretas gigantes! Eram verdes, tinham bocas enormes, bem dentadas e babavam como lobos a espera da presa. Andavam fazendo com que o chão tremesse a cada passo… Eram verdadeiros demônios! Jamais sentiu tanto medo em sua vida. No entanto, devia atravessar. Devia ultrapassar! Descobriu fantasmas do além que desejavam sua alma, passou por terrenos movediços que engoliam tudo que os cercava, enfrentou lobos, cães e outros seres que não podia descrever; já que o seguiam pela noite e não existiam palavras para descrever tamanhas imagens aterrorizantes.

Passou fome. Comia pequenos insetos que encontrava depois de um dia inteiro sem comida. Plantas viscosas eram o que comia quando nem insetos nojentos sua busca lhe rendia.

Passou sede. Bebia a água que a chuva lhe proporcionava quando os Deuses sentiam pena dele.

Precisava esquecer os limites! Alimentava-se com os pensamentos que carregava de sua filha, sua amada e de todos que morreram sacrificados por causa daquele terrível monstro. Devia continuar! Todos dependiam dele!

Durante sua travessia, encontrou uma folha de bananeira com alguns peixes e frutas. Estava morrendo de fome! Ao se aproximar, pensando que seus olhos lhe pregavam uma peça…Paft! Sentiu uma enorme pata contra sua cara!

Era um urso imenso e amedrontador! A fera rugia e atacava-o com uma força inacreditável! Imaginava como aquele animal era mal e agarrava-o cruelmente sem motivos. Por que atacá-lo daquela maneira? Neste mesmo instante, pôde ver, enquanto lutava, um pequeno filhote. Escondido e amedrontado. Finalmente compreendeu que a comida era para o filhote. Assim como para ele, não devia ter sido nada fácil arranjar alimentos. Poderiam estar passando fome há dias. E ele tentou roubar toda comida que os manteria vivos. Havia sim um motivo para ser atacado.

Será que o urso, que defendia ao seu filhote com todas as suas forças, era realmente cruel? Ou ele que estava arrancando a sua chance de sobrevivência era este “mal”? Ambos tinham que sobreviver e lutavam por aquilo que amavam e acreditavam. Conseguiu derrotar o urso e o enterrou. Nunca mais chamou ninguém de mau ao longo de sua vida. Enxergava o porquê cada ser lutava e tomava suas atitudes.

Durante a batalha com o urso, perdeu seu braço. Isso não o perturbou, ele já chegara longe demais para desistir agora. Um braço era supérfluo, quando se possuía outro.

Prosseguiu.

Após sua longa jornada, finalmente alcançou o pé do Monte Inalcançável! Era maravilhoso! Incrível! Repleto de árvores, flores de diversas formas e odores, animais nunca vistos e uma fonte com água cristalina. Jamais vira tamanha beleza!

Infelizmente, seu encantamento durou pouco. Percebeu que para subir a montanha não havia trilhas. Era necessário escalá-la. Não receou. Com um braço, duas pernas e seus dentes, escalou a montanha.

Quando chegou ao topo, acreditou ter finalmente enlouquecido. Vislumbrou um homem idoso, barbudo e grisalho com uma capa negra esfarrapada. O velho mantinha um olhar penetrante e uma face paterna e acolhedora. Sentiu-se ótimo somente por ficar observando aquele homem… “Tenho a obrigação de me levantar! Estou próximo demais!” – pensou naquele momento ao sentir suas forças esvaírem-se.

— É você o sábio que vive nas montanhas? — perguntou o homem sem forças, mantendo-se vivo graças a um sentimento que dava-lhe energia para prosseguir.

— Não. — Disse o homem calma e serenamente.

— Não? Como assim? É impossível!

— Impossível?

— Quem é você?! Diga-me! Eu te imploro! — gritava o aldeão desesperado.

— Sou somente um velho que vive sozinho nas montanhas. Contudo, diga-me. Por que viestes até aqui?

— Sou de uma aldeia muito distante… Enfrentei monstros que nem acreditava que pudessem existir… Enfrentei a fome e a sede… Perdi meu braço… Fiz o impossível! Eu preciso encontrar esse sábio e pedir para que…

— Ele salve sua filha e acabe com o Dragão.

— Como sabe?! —espantou-se.

— Sei de algumas coisas meu rapaz… Foi para acabar com o Yamata que viestes aqui?

— Sim! Vou derrotar aquele dragão! Custe o que custar!

— Dragão? Dragões não existem. — continuava o senhor mantendo sua aparência serena.

— O que? Não existe? Diz-me que venho aqui por algo imaginário?!

— Sim. O ser que chamas de “Dragão” não passa de uma árvore.

— Pare de brincar! Não vê que estou falando sério! A vida do meu povo depende disso! Me diz que aquele monstro é uma árvore? E as tempestades que ele traz? As pragas? O horror?!

— É somente uma árvore enorme. Não é Yamata que traz as tempestades, elas a trazem. Ela fica no topo desta montanha. Quando o tempo revolta-se, a árvore enverga-se. Com os trovões e as chuvas, vocês imaginam um monstro. Seu tronco é muito rígido, pois já viveu milhares de anos. Seus galhos vistos numa tempestade e com uma imaginação fértil, podem parecer chifres. Suas garras não passam de galhos contorcidos pela impiedade do vento. Acreditam tanto em crenças que idealizaram esse demônio simplesmente para culpá-lo. Chegastes até aqui somente para isto rapaz? — prosseguia o velho.

— Uma árvore? O dragão é uma árvore? Eu vim aqui por causa de uma árvore? Como pode ser… — o aldeão dizia, já sentindo que suas forças finalmente o deixariam.

— Será que me procurastes somente por tua sede de acabar com esse dragão? Será que não tens outro propósito? O que te fez superar o impossível? A vontade de acabar com um ser mitológico e imaginário?

— Não! Foi o amor por minha filha! Vim para salvá-la! Preciso devolver-lhe sua vida! Vou salvá-la… — sussurrava o pobre homem, sentindo o mundo lhe abandonar. Sua mente desejava o descanso. Os Deuses, por fim, o estavam castigando…

— Se foi por este sentimento que buscastes de meus auxílios, ajudar-te-ei. Aqui está tua resposta. Neste frasco encontra-se a cura para a praga de tua filha. Neste outro, há um papiro que ensinar-lhes-á como criar uma arma que derrubará Yamata, essa árvore que lhes causa repugnância e medo. Agora bebas isto. — ordenou o sábio, retirando uma de jarra debaixo de sua capa esfarrapada, e escorrendo o líquido pelos lábios do rapaz.

Recobrando a consciência de forma veloz e extraordinária, o aldeão pensou que aquilo fosse um milagre, e o sábio, um Deus. Perguntou-lhe o que era o líquido milagroso, e por que não lhe revelou que era um Deus. O mago, sempre sorridente, respondeu-lhe:

— Ora meu jovem! Um deus? Há, há, há! Não. Sinto desapontar-te, no entanto sou somente um velho alquimista. E o líquido que bebestes, uma mistura formulada através de meus estudos, nada mais.

— Eu vim até aqui para receber estes dois frascos? Tudo o que fiz foi por estes dois frascos? — refletiu o camponês que esperava algum milagre divino.

— Viestes até aqui, para receber o maior dom que o homem pode almejar. Desvendastes uma força que não sabia habitar o teu ser. Enfrentastes monstros, fome, sede, seus limites físico e espiritual foram ultrapassados. Desafiastes seus mitos. Fizestes o impossível. Descobristes a Força De Vontade. Possuindo-a é possível superar qualquer obstáculo por mais difícil que possa parecer-te. E isto, ninguém poderá arrancar-lhe. Estás preparado para mudar tua vida e a do teu povo. Mostre-os, que acreditando em si mesmo, tudo é possível. O impossível torna-se comum, a distância de quilômetros vira centímetros e os anos tornam-se apenas segundos. Acredites que deténs o poder para realizar todos os seus sonhos. Necessitará somente da crença em ti. Chegastes até o topo deste martírio natural, porque crestes que era possível. Nenhum de teus amigos alcançaria este monte, justamente por crer que não conseguiriam. Ensine-os que têm tudo o que precisam para derrotar qualquer monstro e praga existentes. Desvendes o impossível, ele é só uma idéia que pode e deve ser superada.

O rapaz voltou a sua aldeia. Contou para seus amigos tudo o que tinha passado e os conselhos do velho sábio. Pensaram que ele estava louco. Então entregou o frasco para sua mulher pediu para que desse a sua filhinha. Após tomar aquele líquido, ela conseguia respirar normalmente. Sua face tinha cor novamente. Ela estava viva!

Perceberam que podiam realmente curar as pragas, assim como o mago fez. Precisavam descobrir com que plantas e ingredientes ele criou aquela cura. Tinha início a medicina.

Construíram o machado e não precisaram derrubar Yamata. Ele não os amedrontava mais. Usavam a arma para se defender de tigres, ursos e leões.

As tempestades continuavam a destruir tudo. O rapaz, que agora era chefe da aldeia, pediu para que eles fossem para o outro lado da montanha. Lá o tempo era ameno e a biodiversidade indescritível. Eles construiriam uma nova aldeia. “Impossível! Está realmente louco!?” Foi isso que todos lhe disseram. Contudo, ele já não sabia mais o significado desta palavra. Levariam anos para construir outra aldeia? Tinham todo o tempo do mundo. Poderiam morrer ao atravessar aquelas florestas repletas de monstros? Eles tinham os machados para se defender. Agora, eram detentores do mais precioso de todas os milagres: a Força De Vontade. Queriam viver. Era melhor permanecer sofrendo ou tentar desbravar o desconhecido e parar de temer o novo? Se tivessem que morrer, morreriam tentando viver.

Aceitaram e conseguiram mudar sua aldeia.

Muitos morreram. Alguns ficaram loucos com as criaturas que viram. Mesmo assim, a maioria sobreviveu e consegui ter uma “vida” novamente. Eles, de novo, derrotaram o impossível! Às vezes precisamos perder algo muito importante para conseguirmos alcançar nossos sonhos, mas a recompensa é imensamente maior que a perda. Tudo é possível quando acreditamos com todas as nossas forças!

E, talvez, esta pequena aldeia seja a cidade onde você vive. Algum dos aldeões pode ter sido seu ancestral… Impossível? Você ainda acredita nisso?

Texto escrito em 3/4/2006

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5 respostas para A Lenda Do Dragão Yamata (Yamata-no-Orochi)

  1. joão clauder disse:

    é um belo texto inspirador e verdadeiro

  2. Priscilla disse:

    Essa é a verdadeira lenda?

    • Priscilla, essa é uma forma minha de contar uma das versões da lenda. Por ser uma lenda, a história foi passada de geração em geração e há várias lendas diferentes e com morais distintas da história ^^

  3. JudgeZeromus disse:

    olha galera para informações melhores da história assistam o filme A Lenda do Dragão Milenar / esse filme conta mais ou menos a história e é bem legal!!!

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