Será que é mesmo?

Gabriel, que era o garoto mais apreciado pelas garotas do colégio, estava contentíssimo. Há uma semana ele era um completo desconhecido, mais um no meio de todos aqueles alunos. Hoje, ele era o Kara!

Eduarda, sua melhor amiga, o aconselhou sobre o que deveria fazer com relação aos seus sentimentos pela Pati, a menina mais bela, meiga, carinhosa e outros tantos adjetivos que nem mesmo Gabriel teria palavras para expressar.

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— Duda, o que eu faço? Sou um ninguém! Ela nem sabe que eu existo. Ah… se ao menos ela pudesse me ouvir…
— Já tentou falar com ela?
— O que? Tá maluca?!
— Como você vai ter certeza se não tentar dizer para ela? Você não deve tirar conclusões sem nunca ter tentado. Quantas vezes você já deixou de fazer algo só por causa do: “nunca ia dar certo mesmo…” ou “ela é boa demais para mim”, hã? Você nunca vai saber se não tiver a força de vontade, cara e coragem necessárias. Poxa, Gabriel! Você vai desistir de alguém que ama só por causa do “será mesmo?” Vá lá e fale com ela!
— Mas…
— Já!
— Você tem razão, Duda! Já tô cansado de ser fraco e me deixar levar por suposições que eu mesmo invento! (Melhor concordar com ela porque, senão, ela vai me bater…) — e deu um beijo no rosto de Duda, que, sem que ele percebesse, estremeceu desde os pés até o último fio de cabelo que possuía. “Aquele Gabriel… como eu posso gostar tanto de alguém assim…?”

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Vamos lá! Eu posso! Sou forte! Vou conseguir!
Ah! A quem eu estou enganando?! Tô com medo de chegar perto dela… mas se eu perdê-la…

— Pati… eh…. bem… você tá afim de tomar um… eh …sor-sorvete?
— Hum? Claro, por que não?! Garotas eu já volto.

O quê? Como? Ela aceitou? YESSSSSSSSSSSSSSSSSSSS!!!!!!!!!!!!!

Enquanto isso, Duda e Jorge (o melhor amigo de Gabriel), esperam o garoto na casa de Jorge. Tinham combinado de ir ao clube naquela tarde.

— Cadê o Gabriel, Duda?
— Eu acho que ele não vai vir.
— Quê? Mas ele não é de furar com a gente! Vou ligar para ele.
— Não ligue! Ele não vem. — neste momento escorria, bem escondidinha, uma lágrima na face de Duda.

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O que eu digo? Estou aqui ao lado da menina mais popular da escola e nem sei o que dizer! Ai que burro! Ela tá me olhando… espera alguma reação… mas o quê?! — “VOCÊ DEVE DIZER TUDO O QUE VOCÊ SENTE PRA ELA! JÁ!”. É, foi isso que a Duda me disse e vou tentar.

Engoliu todo o ar que foi possível, pensou muito bem e:

— Pati eu te amo. Sou apaixonado por você desde que te vi pela primeira vez. Nunca imaginei que você fosse aceitar estar aqui comigo, e… não poderia perder essa oportunidade de te dizer tudo o que eu sinto!
— Gabriel eu…
— Me deixa terminar! Olha, quando eu te vejo fico sem ar, tonto, pareço um lunático. Quando penso em você meu coração dispara e não consigo nem ter idéia do porquê, mas só me dá vontade de estar ao seu lado. Cada gesto que você faz, o jeito como você reage quando te dizem algo engraçado… é isso que eu precisava te dizer, sei que não vai mais nem olhar na minha cara mas…
— O quê? Não vou olhar mais na sua cara? Foram as coisas mais lindas que já me disseram… ninguém nunca me disse isso antes. Eu adorei! Jamais imaginei ouvir isso tudo de você. Só agora eu percebi que você tem olhos azuis, sabia? Você parece escondê-los curvando-se assim… me deixe olhar pra você sem seus óculos. Você é muito bonito, sabia?! Devia exaltar mais essa beleza. — Houve um grande silêncio. Ninguém podia acreditar no que estavam vendo… aquele garoto beijando a Pati…

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Gabriel está mudado. Agora ele se veste com calça jeans rasgada, arrepiou seus cabelos, deixou os óculos de lado. Está um verdadeiro Kara! É parte da elite da escola. Contudo, tem algo que o incomoda.

Há algo errado. Ele está com saudades da Duda. Ela não atende mais seus telefonemas e, como ela não é uma menina da elite, não pode falar com ela dentro da escola.

— Gabriel, o que foi? — perguntou Pati ao observar como Gabriel estava viajando.
— Hã?! Ah… nada, nada.
— Parece estar muito distraído. Tem algo te incomodando?
— Pati o que acontece se alguém da elite, por acaso… assim, do nada… quebrar alguma das regras?
— Ele volta a ser um ‘Zé Ninguém’ e é expulso do grupo.
— Hum…
— Me deixa dar um jeito nesta sua carinha… — Naquele beijo todos seus problemas fugiram, o medo… a angústia… mas não conseguia parar de pensar na Duda.

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Duda estava passando pelo corredor e viu Gabriel conversando com uns garotos. Os mais convencidos da escola, que ele adorava chamar de “mauricinhos”. Ela tentou se esconder, no entanto ele a viu antes que pudesse ela disfarçar.

— Duda! Pera aí! Por que você não atende quando eu te ligo? Você não quer falar comigo?
— Não é isso. É que estou ocupada com as provas finais.
— Duda você já sabe de cor e salteado essas provas desde a metade do ano. Fazia questão de me jogar na cara que tinha estudado como uma louca e passaria com dez em todas as matérias. Por que você não me diz o que está acontecendo?
— Quer saber? Quer saber mesmo?! Você não é o amigo que eu tinha. Que saía comigo e com o Jorge. Que conversava de assuntos legais e chatos, que me perturbava o dia todo porque eu só estudo, que me contava seus segredos, que confiava em mim! Você não é o Gabriel que eu am…
— O quê?
— É. Eu te amo sim. E não tenho vergonha de dizer isso. Agora vai embora. Vai com aqueles seus novos “amiguinhos”. Vai logo!
— Duda eu… — mas ela já havia corrido para o banheiro feminino, e com ela lá, ele não podia falar o que estava pensando.

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— Gabriel, eu soube que te pegaram falando com aquela nerd da sua sala. Isso não é nada bom. Queriam te expulsar, mas eu disse que deve ter sido algum engano. Você devia estar usando aquela tonta, não é isso?
— O quê? Eu usar a Duda? Quer saber a verdade? Danem-se vocês e essas regras idiotas.
— Gabriel! Você vai sair do grupo por causa de uma garota como aquela?
— Sim! Por causa de uma garota como a Duda! Ela me escuta quando tenho problemas, brinca de tudo comigo, me ajuda a sair das encrencas, faz as encrencas comigo! Me dá os melhores conselhos que já ouvi, e não me obriga a fazer aquilo que eu não quero! Ela é…

E saiu pelos corredores como um louco. Parecia o velho Gabriel, quando estava com vontade de sair às escondidas pra jogar bola ou aprontar alguma na sala dos professores…

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Estava desolada. Ela, que tanto fez por ele, que o ama. Por que ele a deixou? E tudo porque ela disse pra ele fazer o que tinha vontade. Não perder outra chance. Ela acabou perdendo seu amigo… seu moleque… seu Gabriel.

— Duda!!!! Duda!!!!
— Hã? Gabriel? O que você está…
— Xiu! Só me ouve! Eu estava errado! Não gosto da Pati coisa nenhuma!
— Ah… tá… já se apaixonou por outra? Sei… bem o tipo da elite…
— Nada disso! Eu só descobri alguém que eu já amava e não sabia disso. Duda você é a melhor amiga que eu já tive e a melhor coisa que já me aconteceu. Desculpe-me por ter demorado tanto pra entender. Eu te amo, sua nerd! Te amo! Te amo! Te amo! Te Amooooooooooooooooooooooo!
— Sério…? — perguntou a garota sem acreditar no que ouvia.
— Claro. Por que você demorou pra me dizer tudo que me disse hoje? Eu estava pirado com a idéia de ser admirado por todos. Mas a única pessoa que eu queria que me admirasse, era a que menos estava gostando de tudo isso.
— Gabriel, seu bobo… você sabe o que está dizendo? E os seus novos amigos?
— Amigos? Eles são uns tontos!
— Será mesmo? Tem certeza?
— Toda certeza do mundo! Quer ver?!

E naquele momento houve o beijo mais falado da escola durante semanas, e aqueles dois garotos começavam a descobrir coisas que nem imaginavam que poderiam sentir…

Texto escrito em 20 de julho de 2005, primeira vez que me lembrei de comemorar o Dia Internacional da Amizade.  Foi uma tentativa de homenagear Pedro Banderia, escritor que participou da minha adolescência por meio da série de livros ‘Os Karas’.

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