Experiências

Ótima série de relatos!

O Fantástico Mundo de Taline

-Tenho umas amigas que fazem lista mental enquanto estão transando: “para passar o tempo”. Gente?!

-E quando o cara embirra com o seu clitóris? Fica apertando freneticamente, igual aquele povo que aperta o botão do elevador mil vezes seguidas, saca?! Apertar 20 vezes o botãozinho não vai fazer o elevador chegar mais rápido. Certo?! Então, tá.

– Uma vez um cara me disse que percebeu que eu gozava mais por mim mesma do que por causa dele. E ficou abalado. Ele disse que queria que eu gozasse por causa dele. Sério, ele ficou muito bolado porque eu gozava todas as vezes e “por minha conta”.

– Um cara que eu ficava perguntou se eu gozava toda vez que transava. Eu disse que sim e perguntei se ele gozava todas às vezes. Ele, obviamente, respondeu que sim, que sempre gozava e ficou surpreso com a minha resposta: “ mas, tem várias…

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a dificuldade de ser alguém nada incrível

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— e aí, rapaz! há quanto tempo! como é que anda a vida?
— opa, vai bem. melhor até do que eu poderia esperar, na real. e a sua?
— ah, a minha tá uma maravilha. correria todo santo dia, trabalhando bastante, fazendo pós, prestes a casar, financiando casa nova, só alegria. só num dá pra descansar direito, mas não se pode ter tudo nessa vida, né? mas fala de você, tanto tempo sem se ver, quero saber o está fazendo da vida! tá trabalhando com o quê? tá dando aula ainda?
— uhum, continuo dando aulas e decidi mesmo que quero ser professor de idiomas e…
— puts, mas isso não dá futuro! cê é formado em jornalismo na usp, um puta talento e cerébro desperdiçados num trampo que já tem tanta gente fazendo. devia buscar algo mais desafiador, algo com um desafio a sua altura. já pensou em voltar para o jornalismo?
— já, não rola. jornalismo é algo que não gosto de fazer e um ambiente no qual não consigo mais me enxergar, sabe? só me sentia estressado, ansioso, cansado, pilhado, frustrado. já com as aulas me sinto….
— ah, mas daí também! acha que no meu trabalho é diferente? mas faz parte, pô! tem de ser forte para conseguir lidar com as complexidades de trabalhos que valem a pena. tem vez que dá vontade de largar tudo, que a gente fica olhando o relógio o dia inteiro esperando chegar o fim do dia e quer chorar de tristeza, mas isso vai ajudar em quê? nada! melhor mesmo é engolir seco e seguir lutando. já pensou se eu largasse tudo?
— não. você já? Continuar lendo

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No caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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Poema das Necessidades

Não preciso ser negro para lutar contra o racismo.
Não preciso ser mulher para lutar contra o machismo mortal de todos os dias.
Não preciso ser criança para lutar contra a pedofilia e a violência sexual, mas preciso reaprender minha infância para brincar de novo.
Não preciso ler a bíblia, o corão ou o torá para saber o que é certo ou errado.
Não preciso ter sido expulso do campo para lutar pela reforma agrária e apoiar incondicionalmente o MST.
Não preciso morar numa favela à beira de um rio morto para lutar por moradia digna.
Não preciso ficar doente para lutar por saúde digna.
Não preciso ser igual para lutar por aqueles que são diferentes.
Não preciso estar morto para defender a vida.
Não preciso ser gay para lutar pelo povo LGTB.

Preciso, apenas, da minha lucidez alucinada.
Deito com minha loucura serenada pelo cansaço de quem tenta, e tenta e não desiste.

Sempre vale a pena.
Meus filhos e netos precisam disso.
É o que posso.
É o que tenho.
É o que dou.

(PAULO R. CEQUINEL)

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La Marioneta

“Si por un instante Dios se olvidara de que soy una marioneta de trapo y me regalara un trozo de vida, posiblemente no diría todo lo que pienso, pero en definitiva pensaría todo lo que digo.

Daría valor a las cosas, no por lo que valen, sino por lo que significan.

Dormiría poco, soñaría más, entiendo que por cada minuto que cerramos los ojos, perdemos sesenta segundos de luz. Andaría cuando los demás se detienen, despertaría cuando los demás duermen. Escucharía cuando los demás hablan y cómo disfrutaría de un buen helado de chocolate! Continuar lendo

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Papai Noel – Solano Trindade

Papai Noel

Papai Noel vive zangado com menino pobre
não lhe dá presente
não lhe dá brinquedo

Numa fila enorme
às vezes lhe dá humilhação
se tiver cartão
ganha coisas usadas
dos meninos ricos…

É preciso mudar esse papai noel…

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Em busca de atendimento ginecológico, parte final

Conforme o prometido, continuo a seguir a epopeia iniciada na crônica anterior (que você pode acessar aqui, caso ainda não tenha lido a danada).

Vim passar em consulta, por favor.
(Eternos segundos de silêncio com olhar de peixe morto em minha direção depois, como se tivesse questionado, em seu interior mais profundo, o próprio sentido da vida e retornado para contar-me uma revelação superior, disse) Aqui é o setor de ginecologia, senhor.
Sério? Ginecologia? Não acredito! Rapaz, mesmo com dois seguranças querendo me convencer de que aqui era esse setor – ao qual eu não pertenço e do qual tenho de manter-me afastado -, com todas as placas dessa ala indicando que tal especialidade AQUI atende às almas necessitadas, e com a indicação por escrito das enfermeiras da triagem mandando-me pra cá, juro, pensei que fosse a urologia, que é lugar de homem de verdade, né?! Ufa, ainda bem que me esclareceste a situação com tua sabedoria suprema, ó, grande atendente iluminado! Por fim, esse insano pecador pode redimir seu erro e encerrar a tola busca. Muito obrigado, ó, presença eminente do universo hospitalar que tudo sabe e tudo vê!
Foi a primeira resposta que me veio à mente, é claro. Só que como o peito doía e comprar briga com o balconista não tinha pinta de que ia ajudar, limitei-me a responder: Eu sei. Olha aqui o papel, por favor.
Simples. Tudo resolvido. Incrível o poder esclarecedor daquele pequeno pedaço de árvore morta. O que eu dissesse soava como latidos incompreensíveis ou mentiras descabidas a meus interlocutores, no entanto algumas letras impressas validavam o aparentemente impossível, absurdo. Virava verdade instantânea, como num passe de mágica.
Passadas apenas duas horas, ouço uma voz feminina, aguda: Wilheim!
Estranho. Alguma conhecida aqui na sala de espera? Sustento o olhar na direção do som e encontro uma bela mulher, alva, de saia preta, mais ou menos 29 anos, brincos minúsculos e reluzentes, com o nome no jaleco bordado à mão e a face extremamente ansiosa, esperando descobrir o ser humano que responde por aquele nome excêntrico. Coloco o livro na mochila, desengonçado, e me apresso ao seu encontro.
Falei certinho, né? UILRAIM. É assim que se pronuncia?
Sim.
As pessoas sempre acertam?
Não, você é uma das únicas pessoas a fazê-lo de primeira – disse satisfeito pela preocupação daquele ser em chamar-me pelo nome corretamente.
Sabia! Nome difícil o seu! Mas tinha certeza que acertaria! (Seu rosto exaltava alegria, cheguei mesmo a escutar as arquibancadas em sua imaginação que a ovacionavam: MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA! MÁR-CI-A AL-CÂN-TA-RA!* Filha, estamos muito orgulhosos de você! Se formar em medicina nos deixou felizes, mas acertar o nome desse rapaz é extraordinário! Parabéns, nós te amamos! Sim, senhoras e senhores, ela é a vencedora do concurso de pronúncia de nomes esquisitos! E umas das únicas em toda a existência desse indivíduo! AEW…! AEW…! A torcida ia ao delírio!
Oi?
Seu nome, você não disse seu nome.
Ah, desculpa! Sou Márcia Alcântara. Preocupei-me tanto com o seu que esqueci de falar o meu, respondeu com as bochechas coradas de vergonha, encabulada.
Qual seu problema?
(Repito o que disse às enfermeiras.)
Deite-se na maca, por favor. Não, não, com as pernas pra cá. Tá vendo esses suportes? É pra colocar as pernas, mas você não precisa. É mera questão pra entender como funciona a maca. Homens ficam perdidos nesse consultório.
(Permaneço ouvindo atentamente e sem dizer nada).
Tire a camisa. Hum… é, tem algo aqui. Vou chamar um assistente para conferir.
WILHEIM! (É a voz de um homem dessa vez, exultante, cujo dia parece ter sido de felicidades sem fim.) Tudo bem? O que acontece contigo, meu chapa? (Repito a história outra vez.) Beleza. Ó, faz assim. E me indica uma série de posições com os braços para medir visualmente a assimetria de minhas mamas. Depois me examina com as mãos e sentencia: Definitivamente, há uma discrepância no quadrante superior. Sai alguma secreção? Não? Estranho… melhor fazer ultrassom, Ana. Tchau, boa sorte, rapaz.
Mais uma hora de espera. Uilheimi, por favor.
O gel vai ser gelado, no entanto faz demasiado calor, né? Bom que refresca! Qual a história? (Conto agora com maior precisão de detalhes, em vez de “pedra” digo “algo similar a cisto”, em vez de “peito”, refiro-me a “mama direita, do quadrante superior”. Em que especialidade você acabou de passar? Clínico, cirurgião?
Ginecologista.
Gineco? Uau… Interessante. Pois bem, fique tranquilo. Nada de cisto, nem tumor, nem relevante alteração estrutural em seu tecido mamário. São apenas glândulas a mais e inchadas, geralmente provocadas por desequilíbrio hormonal. Volte à sala de espera que a doutora o chamará novamente. Até logo.
Meia horinha depois…
Uilraim, os resultam apontam que não há com o que se preocupar. Você fuma muita maconha? Toma hormônios? Injeta alguma substância ilícita? Toma bomba?
Oi…? (Fico uns dois segundos pra me recuperar, desconcertado, do choque das perguntas repentinas.) Não…
É que maconha adulterada pode conter elevada quantidade de hormônios. Curioso, né?
É… – respondi automaticamente, ainda sem conseguir racionar direito.
Vamos fazer assim: vou encaminhar você para a mastologista. (Pergunta iminente e escancarada em meu rosto: o que é isso?). Nome estranho, né? É a responsável por avaliar seu crescimento das mamas. Vai pedir os exames adequados e indicar o melhor tratamento, ok? Boa sorte e feliz ano novo!
Pra quando ficou agendada a consulta? Vinte e quatro de março, daqui a três meses.
Até lá, recebi a recomendação de aguentar firme, suportar a dor sem reclamar e ser paciente.
Justo. Consegui ser atendido e, mesmo com os impedimentos almejados pelo destino para me barrar, entrei para a história da medicina brasileira; descobri que, aparentemente, não tenho nada com o que me preocupar, fui tratado por meu nome de forma adequada e ainda por cima em apenas quatro horas e meia de espera fui examinado e saí com consulta marcada. O Sistema Único de Saúde é mesmo maravilhoso. Fui embora, de peito inchado, dolorido, pulsante, resiliente e feliz.

—–
*O nome  da médica foi trocado porque não imaginei que fosse publicar uma crônica da experiência e, portanto, num pedi permissão para citar seu verdadeiro nome ^^

Publicada em 05/01/2014

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