Beijo com sabor a mar

Eu era apenas um garotinho quando tive a sorte de dar meu primeiro beijo, foi com uma colega da escola, em pleno ensino fundamental. Para causar ciúmes a um amigo meu, ela disse que queria me beijar. Logo eu, o nerd do rolê, avacalhado da sala, gordinho, tímido e com a alto estima sete palmos abaixo do chão.

Eu a achava bem bonita, bonita mesmo, sabe? Já com o pensamento sexualizado que só a bexiga, mas ainda assim mantendo os sentimentos que condiziam com minha idade, tinha uma mistura de admiração mística e tesão com relação àquela pequenina grande mulher. Me lembro que tinha uma cicatriz na bochecha esquerda, cabelo bem liso e preto, quase sempre preso em rabo de cavalo; que tinha um sorriso malicioso e intrigante, que eu media seu corpo dos pés à cabeça e o volume do seu quadril e dos seus seios, ainda longe de desabrochar, me fascinavam, eram de uma opulência magnânima aos meus olhos. Continuar lendo

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Carta ao (meu falecido) pai

“Desculpe pela demora, já faz 18 anos que tento te escrever e não consigo. O tempo do relógio não é igual ao do meu coração, e ainda dói, dói muito.”

Eu gostaria de poder conversar com meu pai, ele morreu quando eu tinha 10 anos. Queria perguntar pra ele se era feliz, se tinha orgulho de mim, mesmo eu o tratando igual a um capacho. Se acreditava que eu poderia me tornar um homem de quem ele teria orgulho, queria pedir desculpas por tê-lo odiado por tantos anos por ter morrido na casa da sua suposta amante e ter nos deixado trilhões de dívidas.

Queria dizer que eu o perdoei e que sinto muita falta dele. Que tem sido bastante difícil crescer sendo homem nesse mundo escroto sem a figura de um pai em quem me espelhar e apoiar. Que eu espero não tê-lo decepcionado na criação do meu irmão, porque eu era muito pequeno e fiz muita besteira, aquele negócio de ser pai era confuso demais, eu vivia apavorado de num saber imitá-lo direito, dava muito medo. Continuar lendo

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Experiências

Ótima série de relatos!

O Fantástico Mundo de Taline

-Tenho umas amigas que fazem lista mental enquanto estão transando: “para passar o tempo”. Gente?!

-E quando o cara embirra com o seu clitóris? Fica apertando freneticamente, igual aquele povo que aperta o botão do elevador mil vezes seguidas, saca?! Apertar 20 vezes o botãozinho não vai fazer o elevador chegar mais rápido. Certo?! Então, tá.

– Uma vez um cara me disse que percebeu que eu gozava mais por mim mesma do que por causa dele. E ficou abalado. Ele disse que queria que eu gozasse por causa dele. Sério, ele ficou muito bolado porque eu gozava todas as vezes e “por minha conta”.

– Um cara que eu ficava perguntou se eu gozava toda vez que transava. Eu disse que sim e perguntei se ele gozava todas às vezes. Ele, obviamente, respondeu que sim, que sempre gozava e ficou surpreso com a minha resposta: “ mas, tem várias…

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a dificuldade de ser alguém nada incrível

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— e aí, rapaz! há quanto tempo! como é que anda a vida?
— opa, vai bem. melhor até do que eu poderia esperar, na real. e a sua?
— ah, a minha tá uma maravilha. correria todo santo dia, trabalhando bastante, fazendo pós, prestes a casar, financiando casa nova, só alegria. só num dá pra descansar direito, mas não se pode ter tudo nessa vida, né? mas fala de você, tanto tempo sem se ver, quero saber o está fazendo da vida! tá trabalhando com o quê? tá dando aula ainda?
— uhum, continuo dando aulas e decidi mesmo que quero ser professor de idiomas e…
— puts, mas isso não dá futuro! cê é formado em jornalismo na usp, um puta talento e cerébro desperdiçados num trampo que já tem tanta gente fazendo. devia buscar algo mais desafiador, algo com um desafio a sua altura. já pensou em voltar para o jornalismo?
— já, não rola. jornalismo é algo que não gosto de fazer e um ambiente no qual não consigo mais me enxergar, sabe? só me sentia estressado, ansioso, cansado, pilhado, frustrado. já com as aulas me sinto….
— ah, mas daí também! acha que no meu trabalho é diferente? mas faz parte, pô! tem de ser forte para conseguir lidar com as complexidades de trabalhos que valem a pena. tem vez que dá vontade de largar tudo, que a gente fica olhando o relógio o dia inteiro esperando chegar o fim do dia e quer chorar de tristeza, mas isso vai ajudar em quê? nada! melhor mesmo é engolir seco e seguir lutando. já pensou se eu largasse tudo?
— não. você já? Continuar lendo

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No caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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Poema das Necessidades

Não preciso ser negro para lutar contra o racismo.
Não preciso ser mulher para lutar contra o machismo mortal de todos os dias.
Não preciso ser criança para lutar contra a pedofilia e a violência sexual, mas preciso reaprender minha infância para brincar de novo.
Não preciso ler a bíblia, o corão ou o torá para saber o que é certo ou errado.
Não preciso ter sido expulso do campo para lutar pela reforma agrária e apoiar incondicionalmente o MST.
Não preciso morar numa favela à beira de um rio morto para lutar por moradia digna.
Não preciso ficar doente para lutar por saúde digna.
Não preciso ser igual para lutar por aqueles que são diferentes.
Não preciso estar morto para defender a vida.
Não preciso ser gay para lutar pelo povo LGTB.

Preciso, apenas, da minha lucidez alucinada.
Deito com minha loucura serenada pelo cansaço de quem tenta, e tenta e não desiste.

Sempre vale a pena.
Meus filhos e netos precisam disso.
É o que posso.
É o que tenho.
É o que dou.

(PAULO R. CEQUINEL)

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La Marioneta

“Si por un instante Dios se olvidara de que soy una marioneta de trapo y me regalara un trozo de vida, posiblemente no diría todo lo que pienso, pero en definitiva pensaría todo lo que digo.

Daría valor a las cosas, no por lo que valen, sino por lo que significan.

Dormiría poco, soñaría más, entiendo que por cada minuto que cerramos los ojos, perdemos sesenta segundos de luz. Andaría cuando los demás se detienen, despertaría cuando los demás duermen. Escucharía cuando los demás hablan y cómo disfrutaría de un buen helado de chocolate! Continuar lendo

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